Joe Weider and the boys — O marketing do bem deixa forte e faz crescer

A história está repleta de exemplos de homens determinados que, por uma ação deliberada da vontade, alteram o curso da história direta ou indiretamente com suas realizações.


E não seria exagero dizer que Joe Weider é um desses homens.


Judeu canadense, o empresário dedicou toda sua vida à musculação, dando início a seus empreendimentos já na adolescência.


Sua iniciativa é a energia vital que paira quase anônima sobre todo o mercado fitness em todo mundo.


A partir de um estímulo inicial, Weider desenvolveu todo um ecossistema fitness que integrava diferentes produtos complementares.


Utilizando atletas bodybuilders como garotos-propaganda, Weider construiu uma indústria inteira.


Se para ter um físico treinado e desenvolvido era necessário ir à academia, Weider fornecia os equipamentos — algumas anilhas podem ser encontradas ainda hoje.


Numa época em que treinar era quase um conhecimento exotérico transmitido ao círculo dos eleitos, os fascículos de treino eram entregues por correspondência, orientando e instruindo o praticante.


EAD old school. (sim, meu pai assinava esses fascículos).


Iniciativa cujo ponto máximo se concretizou com "The Weider System of Bodybuilding"; um tratado de musculação que, entre outras coisas, imortalizou um sistema de treino mundialmente conhecido, o "ABC".

Push, pull, legs. Ou peito, costas e pernas.


E se os eventos eram ainda pouco relevantes, Weider, por meio das revistas Muscle Builder, Muscle & Fitness, Flex e tantas outras, fazia a cobertura dos eventos, entrevistava atletas e divulgava artigos sobre nutrição, saúde e treinamento.


Uma técnica de cross selling invejável.

Ano a ano, década após década, o empresário canadense foi estimulando, educando e suprindo as demandas de seu público.


No entanto, faltava ainda um elemento que lhe permitisse ganhar as massas e estourar a bolha, romper o nicho.


A vitrine dos palcos e a publicidade das revistas ainda eram insuficientes para o que estava por vir.


Faltava um case. Era necessário contar uma história.


Mais de 100 horas de imagens foram gravadas para produzir e lançar "Pumping Iron", em 1977, o primeiro grande case de marketing de conteúdo que se tem notícia.


O Fotógrafo George Butler e o escritor Charles Gaines eram fascinados com a cultura do bodybuilding.


Eles queriam fazer o documentário, mas precisavam de que Arnold Schwarzenegger desistisse de aposentar-se em 1975, após cinco vitórias consecutivas no Mr. Olympia.


Superado o desafio de manter o Carvalho Austríaco nos palcos, a dupla de produtores precisava agora de um oponente que, dentro da narrativa que criariam, lhes servisse como antagonista desafiante ao título.


O docdrama mergulha nos bastidores da preparação dos atletas para o Mr. Olympia de 1975, em Pretoria, África do Sul.


A proposta era clara.


De um lado, Arnold e sua turma; Venice Beach, Califórnia, praias bonitas e ensolaradas, garotas, amigos.


Do outro, Lou Ferrigno e seu pai, em um porão do Brooklyn, em Nova Iorque; obsessivo, desarticulado, obscuro, ressentido.


E assim foi. Me vs You; Them vs Us. O vilão e o mocinho.


Era a consagração de Arnold como poster-boy de uma indústria que viria a se tornar bilionária.


Graças a "Pumping Iron", o marketing fitness obteve um sucesso estrondoso não só por despertar como nunca antes a atenção do público para um setor ainda em desenvolvimento, mas por divulgar algo que de fato traria um benefício real aos consumidores.


O bodybuilding foi-se tornando de tal forma parte do comportamento de massa, que a possibilidade de que em algum momento a musculação tenha sido considerada uma subcultura rejeitada pelo gosto popular chega a ser inconcebível.


Divulgado e premiado por todo o mundo, seus principais entrevistados e participantes obtiveram sucesso em todas as iniciativas em que empreenderam.


A projeção lhes trouxe grandes oportunidades.


E o estereótipo lançado por Pumping Iron instaurou um novo estilo de cinema comercial, do qual o próprio Arnold seria a principal estrela, ao lado de Sylvester Stallone.


Tudo isso pode ser verificado no documentário Raw Iron, de 2002, o documentário sobre o making of de Pumping Iron.


Daí em diante, o céu seria o limite para Joe Weider.


Ao longo dos anos, o maior financiador do esporte angariou prestígio do público e de investidores, o que permitiu que o prêmio de campeão do Mr. Olympia saltasse de modestos mil dólares, em 1965, para impressionantes 400 mil dólares em 2023.


Além da notável escalada dos cifrões, a construção do fisiculturismo no imaginário popular proporcionou aos atletas um campo de oportunidades de ascensão social e econômica.


Para que pudesse ampliar seu público e a quantidade de atletas de qualidade, Weider fundou a IFBB Pro-League, a Federação Internacional de Fisiculturismo, em 1946.


A FIFA do bodybuilding.


Em suas quase 60 edições, o Mr. Olympia concedeu títulos e lançou nas graças do público competidores de diversas nacionalidades, além de ter proporcionado a atletas negros um protagonismo só comparável, em proporção, ao basquete.


Um feito histórico de globalização e integração social ainda sem o devido reconhecimento.


Ao longo de suas sete décadas consagradas ao fisiculturismo, Joe Weider construiu uma cadeia completa de produtos a partir de um único atrativo:

construir um físico saudável.



Dando vida à anedota do Barão de Münchhausen, que se salva do afogamento erguendo-se pelos cabelos, Weider foi o motor imóvel de seu negócio, da indústria do fitness e do bem-estar.


Ele inventou a demanda para sua própria oferta.


Não apenas um self-made man, mas um navio quebra-gelo, um embaixador do esporte.


Mas se tudo isso foi uma operação genial de marketing, cuja a finalidade era apenas lucrar com entretenimento barato, qual o valor do bodybuilding, sendo ele apenas um estímulo de consumo?


Eis uma grande lição de negócios: todo marketing se justifica se, ao fim e ao cabo, o produto que ele entrega é real, bom de verdade.


E a regra é clara: treinar faz bem.