Pode a vida fazer sentido num campo de concentração nazista?
Foi esta a pergunta feita por Viktor Frankl enquanto prisioneiro de Auschwitz.
O dilema era bastante instigante para o psiquiatra austríaco: como era possível que na fila da morte, alguns homens pudessem permanecer íntegros e esperançosos quando tudo induzia ao desespero e ao fatalismo?
O que os movia? Por que tinham esperanças e objetivos fora do campo?
Quem quer que tenha perdido algo na vida sabe que nem tudo é insubstituível. No entanto, mesmo a falta de coisas simples e pequenas pode arruinar tudo.
A grandeza material de algo nada tem a ver com a função ou a importância. Um rifle sem uma única bala que o torne útil é tão potente quanto um cabo de vassoura.
Sendo assim, seu espanto o levava a questionar-se: e quando se perde TUDO, o que mantém um homem de pé? Ou, como diria Antonio Machado, “¿cuan dificil es cuando todo baja no bajar también?’
Seja um hobby, uma atividade profissional ou uma missão, se extinta a razão que garanta ao indivíduo um propósito, uma convicção, um lugar no mundo, o homem não tem por que realizar algo.
Viktor Frankl viria a chamar a perda desse elemento fundamental à existência de um indivíduo de “vácuo existencial”.
A partir da experiência radical do campo de concentração, Frankl teve sua intuição fundamental para desenvolver sua “logoterapia”.
Àquele que perdeu as esperanças, tudo torna-se alheio e indiferente, de forma que ele, errante, a tudo observa sem incluir-se, sem sentir-se parte integrante; algo que vê, mas de que não consegue participar; que toca, mas não pode compartilhar; que experimenta, mas não desfruta.
É o observador na estação, contemplando anônimo o embarque e desembarque das almas aleatórias. É a "vida sem sentido".
Dessa forma, mesmo na fartura, a comida tem gosto de isopor; no sucesso, há a necessidade de drogas; nos relacionamentos, o sexo mecânico e o prazer compulsivo como fins em si mesmos; e na dor, a falta de vontade. É preciso sempre algo mais que preencha o vazio.
Ou esse vazio já inundou de tal forma a alma do indivíduo que não resta nele motivação alguma.
Segundo o próprio psiquiatra:
“Existem ainda diversas máscaras e disfarces sob os quais transparece o vazio existencial. Às vezes a vontade de sentido frustrada é vicariamente compensada por uma vontade de poder, incluindo a sua mais primitiva forma, que é a vontade de dinheiro.
Em outros casos, o lugar da vontade de sentido frustrada é tomado pela vontade de prazer. É por isso que muitas vezes a frustração existencial acaba em compensação sexual.
Podemos observar nestes casos que a libido sexual assume proporções descabidas no vácuo existencial.”
O que para alguns é um verdadeiro caminho do abismo, pois a falta de sentido com que encaram a vida, não só prorroga a hora decisiva em que as consequências virão, como proporciona uma forma de existência diminuída, desperdiçada numa sucessão de banalidades.
Frankl então elenca três maneiras de encontrar o tal sentido da vida:
1 - criando um trabalho ou praticando um ato;
2 - experimentando algo ou encontrando alguém;
3 - pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável.
A primeira, é o caminho da realização material. É o aspecto mais perceptível da vontade. E por isso mesmo é o da maioria.
A segunda e a terceira maneiras de encontrar um significado na vida são
“experimentando algo – como a bondade, a verdade e a beleza, experimentando a natureza e a cultura ou, ainda, experimentando outro ser humano em sua originalidade própria —amando-o”.
São as vias dos artistas, filósofos, pensadores, escritores, artistas, mártires, missionários, voluntários e santos.
As três vias, no entanto, não são excludentes, mas complementares, e a soma de suas virtudes é o que confere ao indivíduo, à família, ao trabalho, à missão, ao que for, o equilíbrio.
E não pode existir ser humano saudável sem que as três estejam integradas, de certa maneira, na alma.
Se você toca um instrumento, pedala ou gosta de cozinhar, isso conserva sua energia vital para suportar um emprego ruim, por exemplo.
Se tem amor pelos estudos, é capaz de suportar o sistema público de ensino, caso seja um empreendedor, é capaz de superar até mesmo a pornográfica burocracia brasileira.
É o propósito pessoal que dita o quanto você aguenta sofrer.
Sem uma base consistente, nossa biografia e personalidade tornam-se apenas um auto-engano construído sobre pilares de vento. Garoa na vidraça que irá desmanchar-se com o sol da manhã.
Frankl então indica o elemento que une todas as vias e que possibilita que cada um encontre a sua e as preencha de sentido:
“Amor é a única maneira de captar outro ser humano no íntimo da sua personalidade. Ninguém consegue ter consciência plena da essência última de outro ser humano sem amá-lo.
Por seu amor a pessoa se torna capaz de ver os traços característicos e as feições essenciais do seu amado; mais ainda, ela vê o que está potencialmente contido nele, aquilo que ainda não está, mas deveria ser realizado.
Além disso, através do seu amar a pessoa que ama capacita a pessoa amada a realizar estas potencialidades.
Conscientizando-a do que ela pode ser e do que deveria vir a ser, aquele que ama faz com que estas potencialidades venham a se realizar”.
Identificar o sentido da própria vida é então reconhecer aquela fonte vital de ânimo, a base onde a esperança finca pé e não se abala, o abrigo em que o coração se mantém ardente mesmo quando tudo induz à loucura.
Mesmo que você esteja negociando com Hitler.