Eric Voegelin - A fé metastática. Ou: ideologia, o câncer da alma

Utilizado para descrever a condição do indivíduo que acredite na redenção da humanidade, numa “mudança miraculosa da estrutura pragmática de existência na sociedade e na história”, a “fé metastática" é um conceito da filosofia política de Eric Voegelin (1901-1985)



Alguns, muitas vezes, acreditam que ela, a “mudança miraculosa”, pode ser conquistada pela via política. É uma crença que de fato traz uma sensação de preenchimento existencial e funciona como substituta para a transcendência — "tudo é política", costumam dizer. O termo nunca foi tão atual.


Fenômeno secundário que advém do materialismo e da constante imanentização da existência, ele não é propriamente uma escolha, mas um processo de esvaziamento espiritual que leva à busca por uma compensação, que virá a se manifestar de diferentes formas, conforme a circunstância pessoal do indivíduo.


Ou seja, assim como a burguesia confia o sentido de sua existência ao mercado, o progresso material e tecnológico, como esotéricos e gnósticos passam a divinizar a natureza, os minerais e os astros, algumas pessoas passam a devotar sua mais profunda esperança de sentido da vida e de ordem à atividade política.


Assim, elas têm no Estado, a um só tempo, sua máxima autoridade e meio de realização.


Diz Voegelin:

“A turbulência do encontro entre Deus e ser humano é transformada na violência de um encontro entre ser humano e ser humano. Na realidade imaginária dos ideólogos se supõe que essa matança de homens na ação revolucionária produza a muito desejada mudança transfigurante ou metastática da natureza do ser humano como um evento na ‘história’” (“Ordem e História”, v. IV, p.325).


Esse enxerto na alma, verdadeiras muletas existenciais, então se apossa completamente de sua consciência e passa a guiar toda sua conduta e sua forma de orientar-se no mundo. (Perceba como se comparta um típico militante, como acha que descobriu a lógica do perfeito equilíbrio do mundo). 


 


Nesse sentido, a completa a ideologização do ser assume a forma de uma "pneumopatologia" (doença espiritual), que corrompe a alma do sujeito e, ato contínuo, acaba por contaminar todo o resto, já que, em termos aristotélicos, a alma é pura "enteléquia"; ou seja, pura potência e energia que orienta os atos.


Por isso a analogia da metástase: um corpo invasor que se espraia e domina todo o organismo natural, corrompendo todos os tecidos possíveis e alterando não só sua forma, mas sua substância. 


Tanto mais longo o processo, tanto maior será a transmutação do indivíduo em alguma outra coisa.


No entanto, é forçoso reconhecer que toda ideologia tem uma limitação intrínseca.  E a inviabilidade de sua realização plena não se dá pela incoerência interna, mas por sua limitação material natural. 


Ela depende e obriga que toda a sociedade raciocine de forma uniforme, que a ação humana seja moldada a sua imagem e semelhança, para que seu objetivo maior seja alcançado.


Ocorre que a realidade não está em conformidade com o que nenhum ideólogo possa vir a construir mentalmente.


Por isso, todas as ideologias, das mais conhecidas, como o comunismo e o liberalismo, às mais exóticas e emergentes, como o veganismo e o eurasianismo, são o que são: doenças espirituais. 


Um esforço de abstração cujo fundamento teórico está deslocado da experiência real e imediata. 


Em “Hitler e os Alemães”, Voegelin aprimora a descrição do fenômeno da “fé metastática” ao conceituar a "segunda realidade". O observar o mundo como abstração, o raciocínio como fuga da realidade para o universo puramente mental, sem os limites ou imposições naturais do mundo concreto, o “desejo de ter o além nesta vida”. 


É preciso entender que são perfeitamente possíveis a construção artificial e a articulação harmoniosa de diferentes correntes com vistas a obter uma nova forma de guiar a sociedade.


Conceber então uma nova teoria que concilie até mesmo vertentes opostas, por síntese e aglutinação, não é exatamente um desafio, desde que se resolvam mentalmente os impasses entre elas. Impasses “que, na verdade, são apenas semânticos e resolvem-se tão logo se começa a pensar”. 


A inviabilidade material de uma idéia não anula as possibilidades de coerência lógica do discurso, já que este não precisa ser aplicável ou adequado à realidade concreta.


Assim,

uma realidade imaginária permite a matança, que nesse caso já não pertence à categoria de assassínio, de Direito, de justiça e assim por diante. Então, a constituição inteira da realidade do homem e da sociedade é apagada pelo sonho, pela fantasia, de uma segunda realidade, (...) como ‘necessidades históricas’” (p.301).



Assim, uma ideologia como pretenso recurso de conhecimento universal vale tão somente como simulacro de interpretação da realidade; como um rascunho do objeto que ela busca traçar. 


Fechada em si mesma, ela tem de, necessariamente, ignorar as contradições concretas de uma realidade tridimensional e transcendente, reduzindo à rés do chão, num discurso fechado e linear, toda a complexidade das relações entre os entes.


Portanto, mesmo quando algum aspecto objetivo da realidade é percebido com precisão, ele não é nada mais do que um acerto acidental. Ou seja, o ponto em que o discurso ideológico e um dado específico da realidade convergem sutilmente para, tão logo a realidade se imponha, afastarem-se novamente.


Convergência que se dá, no entanto, não pela precisão integral da teoria, mas pela assertividade ocasional de um ou mais pontos isolados, que não obstante serão utilizados para validação de todo resto. O que se pode chamar de “raciocínio metonímico”; considerar o todo pela parte.


A única saída é: a realidade está aí, respeite-a e aja dentro de suas possibilidades. Transformá-la resultará em uma tragédia ainda maior.