Verdade seja dita: ler é uma faca de dois gumes. Leia o que não presta e você se estrepa.
Às vezes lemos o que queremos; às vezes, o que
precisamos. Mas a satisfação se dá ao lermos por necessidade justamente
aquilo que desejamos, quando encontramos prazer no dever.
Ocorre que, sempre que estudante ouve a respeito da
necessidade de muita leitura, as respostas típicas são que (1) ler
rápido é prejudicial, (2) é preciso meditar sobre os livros, (3) não há tempo para tanto, (4) sente desânimo.
Nunca, antes de questionar, ele cogita a hipótese de
que cada livro pede uma postura diferente, de acordo com
objetivo do leitor e a função que o livro cumpre em seu plano de estudos.
Sendo assim, "rápido" e
"devagar" se tornam categorias relativas. Quanto ao tempo
disponível, segue a lei básica da eficiência: fazer mais com menos;
cabendo a cada um encontrar a justa medida de suas possibilidades.
E é para isso que existem as quatro espécies de leitura, sugeridas pelo Frade Dominicano A. D. Sertillanges, em “A Vida Intelectual”. Cada espécie de leitura permite e exige um desempenho diferente, que só será alcançado se você mesmo souber qual o seu propósito.
A regra geral de Sertillanges para se ler com
eficiência é simples: atenha-se à função que o livro tem em relação ao seu
interesse central, e tudo o mais fluirá com certa naturalidade.
Se for uma leitura de formação, fundamental para sua vida ou estudos, é natural
que se gaste mais tempo no entendimento mais profundo de suas idéias e
mensagem.
Se for uma leitura de inspeção, informativa e de consulta, vá até onde puder,
desde que sinta que está de fato conseguindo extrair o conteúdo.
Ao passo que as leituras de distração e relaxamento
estão ali para compensar o esforço que se tem com todas as outras. Portanto,
faça com que mesmo a distração seja algo construtiva.
Por fim, há as leituras de estímulo; fontes de
vigor para restaurar o ânimo, quando há dispersão e desvio de propósito. Pois "nos
momentos de depressão intelectual ou espiritual, autores favoritos, páginas
reconfortantes, tê-las à mão, prestes a inocularem no espírito a boa seiva, é
recurso incomparável".
Contextualizadas, a recomendação de Sertillanges exige
novos contornos e adaptações, dadas as mudanças de época, mas nada demais.
Como sempre, tudo começa com perguntas: "aonde quero chegar? E como esse livro me será proveitoso nisso?".
Com efeito a leitura não é tudo na formação cultural e intelectual do indivíduo. Seu auto-aperfeiçoamento e instrução dependem de outros fatores. Entretanto, ler é o mais importante deles, já que é o momento que mais exige empenho do estudante.
É por onde a maior
parte da herança cultural e técnica será absorvida pelos especialistas,
mestres e professores, antes de passá-la adiante, seja de forma escrita ou
falada.
Dessa forma, quem
não lê já está de fora, pois a leitura não é passiva e exige
protagonismo e proatividade do interessado.
Mas, para que serve a
educação? Para onde você quer ir mediante o estudo e a leitura? Para
onde um professor quer levar o aluno pelo ato de ensinar?
Para Hugo de São Vítor
(1096-1141), a resposta era clara: o ler e o ensinar são um
entretenimento com a Mente Divina. Conhecer é conhecer a Deus.
No entanto, estudos exigem método e propósito. E uma outra virtude fundamental. É por isso que, a partir de Didascálicon, pode-se falar em um “antes e depois de Hugo".
Este livro de Hugo de São Vítor é
considerado um divisor de águas no saber mundial. É, na história, o
primeiro livro pedagógico direcionado aos alunos na forma de roteiro
sobre como e o que ler.
Nele, os jovens
encontravam conselhos sobre as qualidades que fazem do aprendiz um bom
discípulo, cuja virtude suprema é a disciplina.
Vendo caravanas de
jovens chegando a Paris dos quatro cantos da Europa, o Mestre Hugo concebera a
idéia de apresentar-lhes um quadro geral dos estudos e das disciplinas,
para que eles se situassem e soubessem escolher.
Com efeito, incitando
seus jovens a “ler tudo”, o professor estava inaugurando a era do livro,
que daria vida à Universidade e duraria até os tempos atuais.
O século XII fica
marcado pela revolução intelectual do livro, ou cultura livresca.
Além do copista agora havia também o autor. E à leitura monacal acrescentavam-se
a criação, a reflexão, os fichamentos e o debate.
O homem então aprende a
manusear os conhecimentos ao invés de apenas lê-los.
A novidade do ato de
escrever cria a novidade do ato de ler e ensinar. Neste sentido, pode-se
dizer que as redes sociais são plenamente medievais.
O leitor torna-se autor
novamente, as fontes multiplicam-se e surge então, novamente, a necessidade de
organizar e sistematizar os programas de estudo, as técnicas de leitura e de
filtrar os objetos dignos de atenção.
“Há alguns que, mesmo
não ignorando os seus próprios limites, buscam o saber com tal afinco e insistem
tão obstinadamente no estudo, que merecem obter, por obra da vontade,
aquilo que não obteriam pela eficácia do estudo em si.
Por isso, o salmista diz: ‘Não quiseram entender, para não ter que agir retamente’. Não saber e não querer saber são de longe duas coisas bem diversas. Não saber é questão de incapacidade, mas detestar o saber é perversidade da vontade.”
Portanto, mais do que
ler, é necessário desenvolver o desejo pelo conhecimento, abrir a
mente para essa disposição de ouvir o mundo falar.
A experiência literária
cura a ferida da individualidade, sem lhe minar o privilégio.
Ao ler a grande
literatura, em sentido amplo, o indivíduo multiplica-se por
mil, transcende a si mesmo, sem deixar seu Eu próprio.
Quem lê assimila na
própria personalidade mais lembranças e conhecimentos do que teria
se vivesse mil anos. Se universaliza no tempo e no espaço.
E assim se diz que a
consciência, forjada pela combinação dessas memórias, é composta por
todas elas, não em sentido efetivo, mas virtual e potencial.
E esta é a dignidade
humana natural, que todos têm igualmente, mas nem todos a conhecem na
mesma medida.
Todo animal que vem ao mundo é o primeiro e o único animal, na medida em que tem traçado no instinto seu destino e todas as possibilidades do seu ser. O homem, não.
Mas, e quando o homem se
nega a realizar suas potencialidades?
A imaginação e o
horizonte de consciência limitados restringem as
possibilidades de ação. A carência de vocabulário prejudica o
entendimento e empobrece a expressão.
Quem escreve mal, pensa mal. Quem desconhece essa condição, ignora sua capacidade de causar angústia e sofrimento.
Foi pensando nisso e em
outros dramas da vida interior que Mortimer J. Adler (1902-2001) produziu
o mais completo guia de leitura do século XX, “How to Read a
Book”.
Segundo Adler,
“Um dos mais sagrados privilégios humanos é o de sermos homens, primeiro, e cidadãos ou nacionais, depois. Isso se aplica tanto à esfera cultural, quanto à política. Não fomos hipotecados nem ao nosso país, nem ao nosso século.
É direito nosso pertencer à vasta confraria de homens, que não reconhecem fronteiras ou quaisquer ídolos locais ou de tribo. É, mesmo, nosso dever. (...) É lendo os grandes livros que isso acontece. Assim, a mente humana, em qualquer lugar que se encontre, pode se libertar das emergências vulgares e dos 'preconceitos locais', elevando-se ao plano universal da comunicação.
(...) No tocante a isso, sua inteligência se tornou livre (...). Só assim pode levar integralmente a vida da razão, pois, embora vivendo num tempo e num lugar determinados, não pertence nem a um nem a outro”.
Sendo assim, o aprendizado fornece
ao homem códigos de formalização cada vez mais sofisticados que lhe
permitem ter acesso a possibilidades de ação cada vez mais amplas.
A aquisição de cultura por meio da leitura abre a possibilidade de conceber ações que para o seu meio social imediato são inimagináveis.
Acessando intelectualmente a outras ações ele pode, por analogia, agir aqui e agora. Sabemos, portanto, que o mundo existe não só porque o vemos, mas porque agimos sobre ele.
Ao tentar ler o que se
quer porque se está determinado, é preciso saber que nem tudo está acessível
só pela vontade e pela disciplina.
Por mais que o
indivíduo tenha a disposição e o interesse em compreender o conteúdo e a forma,
é preciso a experiência ou o conhecimento prévio de que depende a
leitura.
Alguns lingüistas
entenderam a linguagem como sistema, um código de interações que se fecha em
si mesmo. O alemão, o português, o mandarim; um distinto do outro.
Mas o que faz a
diferença é o mundo. O referente, o mundo, é determinante e
condicionador de todo o resto.
Isso significa que a
tomada de consciência na participação nessa realidade externa se dá através do diálogo.
A noção de objetividade
é conquistada por meio do diálogo e da interação de dois seres humanos. Ao usar
uma cadeira ou cortar com uma faca, por exemplo, a intenção de quem as
produziu é logo comunicada e percebida.
Cria-se não só uma
possibilidade de ação, mas de coparticipação. Ou seja, a ação
simultânea ou cooperativa em vista de um resultado subseqüente.
Já o livro contém uma
imensidão de diálogos possíveis de que o leitor precisa se
conscientizar.
De modo que ler,
então, é uma forma de ouvir o outro falar a respeito do mundo.
Visando aprimorar toda
essa dinâmica, aprimorando o diálogo entre leitor e autor, mediado
pelo texto e o mundo a que ele se refere, Adler compôs um roteiro de leitura.
São três leituras distintas, que podem ser classificadas da seguinte maneira...
I - Estrutural ou
analítica. Envolve classificação do tipo e assunto, resumo do conteúdo,
numeração das partes principais, definição do problema-alvo do
livro.
II - Interpretativa ou
sintética. Deve-se concordar com o autor sem resistência, e compreender as proposições,
sentenças, argumentos mais importantes, indicando se ele conseguiu alcançar
seu objetivo ou não e por quê.
III - Crítica ou
avaliadora. Descreva primeiro, interprete depois. Mostre em que o
autor não está informado ou está mal informado, em que ponto é ilógico e no que
sua análise ou proposta é incompleta.
As “três leituras" não são três no tempo,
são três em modo. Para que um livro seja bem lido, pode-se dizer que o
ideal seria empregar os três modos, um de cada vez.
O número de ocasiões em
que se pode ler alguma coisa com proveito dependerá, em parte, do
livro, e em parte dos leitores e sua rotina.
Em todos os casos, ler
será observar o mundo a partir das lentes do autor, tomando o texto como
mediador da realidade.
Adler então resume:
“Muitos de nós
exprimimos essa distinção mostrando-nos capazes de lembrar alguma coisa e
capazes de explicá-la. Se vocês se lembram do que disse um autor, aprenderam
alguma coisa lendo-o. Se o que ele disse é verdade, aprenderam alguma coisa
sobre o mundo”, (A Arte de Ler, p. 37).