O Sino e a Sereia (II)



“Goneril: É melhor te preocupares em contentar teu
dono, que te recebeu como esmola do destino.
Você renegou de vez sua raiz. E bem merece o não
ter que tanto quis.
Cordélia: O tempo há de revelar o que se esconde
nas dobras da perfídia:
Aos que disfarçam sua peçonha
Ele, no fim, sempre expõe à vergonha.”

— Shakespeare, “Rei Lear”, ato I, cena I.

Se há algo que caracteriza e justifica o papel social do intelectual, é sua capacidade de observar e compreender o estado de coisas em que se encontra, e por isso mesmo, oferecer algum senso de ordem àqueles para quem o caos ao redor e a desarmonia são um peso insuportável.


Em “Hitler e os Alemães”, Eric Voegelin (1901-1985) definiu o resultado desse esforço de entendimento do contexto espiritual e cultural de um determinado período como “presente domado”. Em que pese a obviedade da necessidade de se compreender o momento histórico, a sutileza da análise do filósofo austríaco se revelou ao apontar que um “presente indomado” é, geralmente, subproduto de um “passado indomado”, e que este, à sua época, erasimplesmente “presente” e não “passado”.


Sendo assim, tem-se que “passados indomados” são sempre “presentes indomados” pelos homens de seu tempo, que se tornam incompreensíveis para as gerações futuras. É dessa falta de pertencimento e desse estado de inconsciência coletiva que nascem os lugares-comuns como recursos simplificadores de um assunto não suficientemente esclarecido. Diz Voegelin:


“Não há passado indomado (...). Há apenas presentes indomados. (...) E já que o passado, sendo presente em seu tempo, era indomado, (...) chega ao presente indomado, numa continuidade histórica” (p.102).


Quando, no entanto, esse passado influencia o presente, aqui e agora mesmo, então presente permanece sob estado de confusão, indomado e indomável. É aí que as gerações contemporâneas são chamadas a sentar-se em torno da mesa, consultar as bibliotecas e remexer os arquivos para responder: “quem somos?”


É o domínio do presente a que todos são chamados e do qual ninguém pode fugir: revirar e descobrir as atrocidades do passado — “um reparo picante no alforje da memória”, nas palavras de Machado de Assis.


O que está em jogo, no entanto, não são os possíveis horrores, mas a estrutura espiritual dos homens que cooperaram com tais coisas. Sem a tomada de posse dessa influência geracional, esta se torna cósmica, inapreensível; o sujeito permanece como que boiando à deriva, sem rota nem bússola que lhe permitam assumir o controle da embarcação.


 

Mas se é verdade que o que diferencia o homem dos outros animais é sua capacidade para conquistar a consciência de si, penetrando no “tempo que antecede seu próprio nascimento”, como diria Rosenstock-Huessy, é também obra sua a criação de todos os mecanismos intelectuais e materiais para tornar o processo o mais complicado possível.


Não à toa, os estudos sobre a relação entre os intelectuais e a sociedade preenchem bibliotecas inteiras. Entre a vanguarda literária e os fatos sociais e econômicos, se materializa a cumplicidade entre a percepção imaginativa e ação contra a ordem (ou a desordem) estabelecida. Não raro, as crises são gestadas pela força intuitiva do gênio; por isso se diz que as idéias têm consequências.


Nos anos 50 do século passado, o sociólogo Raymond Aron destrinchou em camadas aquele que seria o capítulo mais influente e determinante na história das idéias dos últimos 150 anos.


No célebre ensaio sobre o “O Ópio dos Intelectuais”, as contradições, inconsistências e falhas históricas do marxismo são expostas com sutileza e sofisticação.


Vencidos quarenta anos do “vôo da coruja de Minerva” do materialismo dialético, no entanto, era absolutamente notável como, derrotado intelectual e empiricamente, o pensamento revolucionário permanecesse vivo e pulsante em toda parte, fazendo agora as vezes de entorpecente cujo propósito era não senão auxiliar o indivíduo a evadir-se da realidade. Um vício mental irresistível.


Se é verdade que na retórica política o agente diz e desdiz com a desfaçatez dos cínicos, na confrontação dialética dos intelectuais, as certezas movem-se lentamente; mas, chegada a hora, arrastam o que estiver pela frente, deixando uma impressão tão profunda quanto possível nos corações e mentes de seu tempo.


No relógio dos discursos, a retórica é o ponteirinho afoito, corre, sobe e desce; vai-se deslocando todo pressa, esperançoso. O ponteiro maior segue moroso, mais calmo e comedido; é a dialética. Também na política não é diferente; a propaganda sempre irá na frente, mas a filosofia é que marcará a hora.


Aron então distingue as três diferentes concepções de revolução marxista:


1) a tomada imediata do poder por um pequeno grupo armado que, conseguindo o controle do Estado, transforma as instituições;

2) a evolutiva, com a sociedade futura devendo amadurecer dentro da sociedade atual, antes da crise final e salvadora;

3) por fim, a revolução permanente, com o partido operário exercendo progressivamente uma pressão constante sobre os partidos burgueses por meio reformas, a fim de minar a ordem capitalista e simultaneamente preparar a vitória e o advento do comunismo.


Das três, saiu-se com a vitória a estratégia evolutiva, a menos afeita ao temperamento de Marx e cuja característica fundamental é o adiamento do momento de ruptura a um futuro indeterminado. Momento este que, para o bem ou para o mal, nunca chega.


Um clássico da literatura marxista, em a "Miséria da Filosofia", escrito em resposta às críticas feitas por anarquistas como Bakuhin e Proudhon, que apontavam que a proposta comunista levaria inevitavelmente ao totalitarismo, Marx defendeu a ação revolucionária em oposição à contemplação e ao racionalismo filosófico que, divagando em reflexões, jamais fincam pé na história.


Esforço semelhante foi realizado também por Lênin em "Esquerdismo: doença infantil do comunismo" e o “O Estado e a Revolução”, defesas ferozes da tese de que a ação revolucionária seria a única capaz de levar a classe trabalhadora ao poder, já que o “esquerdismo”, sendo uma variável resultante do processo democrático, estaria contaminado pelas frivolidades burguesas e liberais. Por isso, dizia: 

“É preciso saber enfrentar tudo isso, estar disposto a todos os sacrifícios e, inclusive, empregar - em caso de necessidade - todos os estratagemas, ardis e processos ilegais, silenciar e ocultar a verdade, com o objetivo de penetrar nos sindicatos, permanecer neles e aí realizar, custe o que custar, um trabalho comunista”.


Mas como exercer o imperativo revolucionário da “crítica radical de tudo quanto existe" sem destruir o próprio movimento que a inspirou?


Uma densa cortina impede o conhecimento dos antecedentes, já que a forma mentis de seus agentes consiste justamente em desconstruir o passado e o presente, num eterno moedor de consciências. A obscuridade que se sofre em segredo como uma impotência, a partir de certa altura passa a ser adorada e então é alçada a mandamento divino de uma doutrina cuja origem é a própria confusão. Eis a natureza da "dialética negativa" — ou a “estrutura espiritual” revolucionária, nos termos de Voegelin.


O debate que buscava equacionar as grandes áreas de atuação humana, como a política e a economia, foi-se dissolvendo em propaganda e militância pura e simples, num franco processo de decomposição cultural e ideológica. A disciplina ideológica valendo-se de referências e premissas bem específicas, por questionáveis que fossem, reduziu-se aos encantos do subjetivismo radical que só encontra ouvintes mediante o apelo emocional.


 

Estilhaçada pela técnica filosófica a que devia sua própria existência, a elite pensante esquerdista tornou-se pouco a pouco incapaz de absorver e assimilar o pensamento e as obras de seus precursores. A falta de conhecimento histórico atomiza o indivíduo, deixando-o desnorteado no labirinto das opiniões.


A ilusão de que o percurso histórico é o percurso do tempo e, portanto, caminha somente adiante, tem como efeito incontornável a condição de que o sujeito não chega jamais a cogitar a hipótese de que, para corrigir um problema, ele deva parar o que está fazendo ou até mesmo retroceder. Esquecendo-se do que dizia Otto Maria Carpeaux: o verdadeiro caminho é a volta.


A crítica radical de tudo quanto existe reduziu o passado a uma gaveta de velharias, aberta somente para lembrar-se de tudo aquilo que conseguiu destruir. Confusão mental que, no prazo de meio século, conseguiu levar o movimento revolucionário do militarismo totalitário marxista-leninista ao anarquismo do lúmpen de Michel Foucault.


Do mesmo modo, a dissolução da unidade material e intelectual, que agora caracteriza o trajeto dos debates revolucionários mundo afora, também já dá o ar de sua graça na política local. Perdida entre as linhas de força que se agitam no ventre do movimento, uma assembléia de vozes dissonantes, a campanha esquerdista majoritária não sabe em que direção seguir, como no caos do poema de Yeats, “Turning and turning in the widening gyre / The falcon cannot hear the falconer/ Things fall apart; the centre cannot hold/ Mere anarchy is loosed upon the world”.


As aparições recentes de Lula têm criado cada vez mais problemas para a esquerda, que até então eram privilégio de Bolsonaro: a rejeição devido às declarações públicas. Montado no palanque para uma platéia adestrada, Lula já não sabe se se dirige à elite do funcionalismo ou ao operário pai de três filhos que paga 45% de seu salário em impostos a fundo perdido; se fala às mães que perdem seus filhos para os fuzis do tráfico, ou para militantes universitários pequeno-burgueses, clientes usuais desse mesmo tráfico; se defende a revolução sexual do show bizz ou se apresenta um plano de geração de empregos aos necessitados.


Ocorre que, mesmo no auge da criminalidade de seu governo, o ex-presidente sempre contou com uma verdadeira máquina de assessoria e desinformação; além da simpatia da mídia, que dele só dizia o que era indisfarçável, havia toda uma blogosfera financiada para servir-lhe de bucha de canhão e linha de frente na batalha de narrativas.


Agora o petista caminha no escuro no terreno baldio que são as redes. Acostumado a ser pedra, não sabe ser vidraça, e permanece inconsciente de que na internet nada se perde e vive-se num eterno presente. Cada fala sua ecoa com virulência pelo eleitorado e cala fundo na consciência mesmo de seus antigos simpatizantes, que agora sem o filtro da mídia tradicional e a anestesia de uma militância digital coordenada não reconhecem o líder de outrora.


Em sua primeira versão, agressivo e revolucionário, com caspa nos ombros e barba de andarilho; um comunista raíz, da moratória, contra o Real, a privatização das teles, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e o tripé macroeconômico. O articulador do Foro de São Paulo e suas conexões com ditaduras assassinas e o narcoterrorismo das FARC.


 

Na segunda, o Lula “paz e amor”, fabricado pela astúcia de Duda Mendonça, símbolo messiânico de ascensão social. Garoto-propaganda de um socialismo adaptado que oferecia como projeto à nação o grande salto de progresso ao prometer conciliar as velhas forças do mercado e da indústria com a assistência social e a ampliação dos direitos e garantias trabalhistas, dando à virulência revolucionária, amortecida pelo aparelhamento das comunidades eclesiais de base e pelo suporte de lideranças evangélicas e empresariais, um trato fraternal. Não sem uma “carta aos brasileiros” e farta oferta de crédito sem lastro.


 

 Nenhum desses Lulas se criou muito afeito ao discurso identitário radical que hoje faz água nas faculdades de humanas; é celebrado pelo beautiful people, para quem a baixaria generalizada é questão de etiqueta; e que ganha cada vez mais espaço entre a esquerda liberal que, intoxicada por boas doses históricas de niilismo e relativismo, abraça cada vez mais a revolução cultural.


Minorias eleitorais que em Bolsonaro encontram desprezo explícito, mas com quem Lula tenta agora dialogar de forma estabanada ao custo de perder o apoio de seu eleitorado majoritário, classe média e baixa sem tendências revolucionárias, estável em suas preferências.


Não há síntese possível entre as versões lulistas, já que os públicos a que se destinam o discurso de cada personalidade do líder da esquerda brasileira não dialogam de maneira alguma. Se acenar de forma muito explícita à parcela da população envolvida na causa sexual e de gênero, abortista, na defesa de homicidas e ladrões, correrá o risco de minar sua aprovação entre a maioria do eleitorado, preocupada com questões mais prementes como emprego, segurança e moradia.


Como o Rei Lear de Shakespeare, a esquerda na figura de Lula “mesmo no tempo melhor e mais saudável de sua vida sempre foi um imprudente”, de modo que se deve “esperar de sua velhice não apenas os defeitos há muito adquiridos e entranhados, mas também a impertinência e os caprichos que chegam com os anos de senilidade e doença”.


Ao dispersar seu projeto em um emaranhado teórico inconciliável, a esquerda agora vê-se refém de um eleitorado cuja militância fratricida pode, a qualquer hora, reivindicar sua parte da herança, deixando a realeza ao relento, sem reino nem súditos. Com o detalhe de que, na tragédia do bardo inglês, a côrte é tão ruim quanto a majestade.


Prestes a capitular, abrindo um vácuo sem precedentes na política nacional, fechado em sua bolha e insensível aos apelos da realidade, Lula sonha com os sinos da aurora de novos tempos, mas não consegue livrar-se dos encantos da melodia de sereia que lhe embriaga os sentidos a conduz ao precipício; a vontade de poder a qualquer custo.