O Sino e a Sereia (I)

 

Caminante, no hay camino: 
se hace camino al andar. 
Al andar se hace camino, 
y al volver la vista atrás 
se ve la senda que nunca 
se ha de volver a pisar.

— Antonio Machado


Um dos privilégios de que o movimento revolucionário desfruta desde sempre é a liberdade de alterar seu discurso conforme a conveniência e a mudança dos tempos. 


O exemplo mais poderoso dessa condição é a linha sucessória de teorias que, ao cabo de um século, não só divergem entre si, mas são francamente opostas. 


Diferentemente da tradição clássica, passando pela escolástica, que se mantém num continuum há milênios, a tese original marxista se esboroou em algumas décadas.


Segundo Karl Marx, a missão do proletariado seria dar fim à pré-história, instaurando com a revolução o reino da liberdade e da igualdade terrenas. A vocação revolucionária do proletariado seria precipitada pela tensão dialética decorrente da exploração da classe trabalhadora pelos detentores dos meios de produção; “a testemunha da inumanidade que levaria a humanidade à sua realização”, nas palavras de Raymond Aron. 


Cinqüenta anos após a revolução soviética, quando o mundo ainda curava suas feridas da guerra e observava assustado às atrocidades do maoísmo, a intelectualidade francesa fazia um giro de 180º nos ditames da militância e ganhava as ruas de Paris.


 

Uma nova geração, cujo expoente era Michel Foucault, assumia as cátedras e o “ópio dos intelectuais” cedia espaço a um novo tipo de sociedade, no qual a classe trabalhadora obteria a adesão das "massas não proletárias".


Era a substituição do proletariado pelo lumpemproletariado - prisioneiros, homossexuais, pacientes psiquiátricos, viciados, ladrões e toda sorte de tipos socialmente desajustados - para criar uma nova sociedade descentrada. 


O lumpem era considerado por Marx como um entulho social improdutivo e alienado. Em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” (São Paulo: Boitempo, 2011), o filósofo alemão o define como:

 

“Libertinos, arruinados, com duvidosos meios de vida e de duvidosa procedência, junto a descendentes degenerados e aventureiros da burguesia, vagabundos, licenciados de tropa, ex-presidiários, fugitivos da prisão, escroques, saltimbancos, delinquentes, batedores de carteira e pequenos ladrões, jogadores, alcaguetes, donos de bordéis, carregadores, escrevinhadores, tocadores de realejo, trapeiros, afiadores, caldeireiros, mendigos”, (p.91).


Tinha início a “nietzschezação da esquerda”. Tudo isso está bem comentado em “A Mente Imprudente” (Rio de Janeiro: Record, 2017), de Mark Lilla.   


A forma geral da mentalidade moderna assume que as verdades só se encontram no plano abstrato, pois na realidade concreta, o que há são arranjos dialéticos temporários. A matéria é mutável e a razão humana, falha.


Portanto, o mero conflito de consciências, os desastres naturais, a vontade irracional, as paixões, a fugacidade da matéria, irão demandar novas soluções, trarão novos arranjos, novos contextos. 


Ao concluírem que não há essências, mas que a compreensão emerge do devir, da história humana, perceberam também que precisavam participar ativamente do processo. Conferindo existência às futuras verdades latentes no presente, precisavam atualizar tudo aquilo que era potencial. As coisas nunca “são”, mas “estão”.


Se o movimento dialético das idéias chega a consumir um século de história, é porque é da sua natureza mesma penetrar primeiro o núcleo duro da intelligentsia, para só então ganhar a boca do povo, após uma longa linha de transmissão, composta pelos meios de comunicação e as instituições culturais e políticas.


 

A política prática revolucionária, no entanto, desfruta dessa carência de escrúpulos metafísicos com uma desenvoltura ainda mais notável. É formidável como diz e desdiz com a desfaçatez dos cínicos e uma audácia quase obscena. 


Na medida em que seu discurso se dá a nível retórico, ela desliza suave sobre as arestas incômodas do confronto dialético para ganhar as massas com a velocidade das manchetes e dos fatos do dia.


Uma vez que o objetivo maior das afirmações retóricas não é a verdade, mas o convencimento, pode-se dizer que sua eficiência é tanto maior quanto menos palavras precisem ser ditas.


Não raro, em vez de se concentrar na racionalidade do público, o emissor apela ao mais obscuro dos sentimentos de quem o escuta. Abalada pelo estímulo emocional inicial, vulnerável, somente aí a audiência recebe o apelo secundário — este, aparentemente lógico e coerente.


Desestabilizado e emocionado, o ouvinte decide pela emoção e justifica pela razão. Eis a dinâmica da tomada de decisão pela estimulação retórica, técnica acessível tanto a um vendedor de sapatos quanto a um chefe de estado.  


O pensamento crítico, cético como deveria ser, não tem sobre a psicologia das multidões o poder contagiante que têm as crenças afirmativas, mesmo falsas. Se a dialética é a tensa disputa que distingue o verdadeiro do falso, a retórica é a técnica para persuadir sobre tudo o que for conveniente.


O comício camuflado de aula magna realizado por algumas lideranças de esquerda do país, no último dia 4, no anfiteatro da UNICAMP, é exemplo significativo dessa distinção de níveis discursivos.


A um só tempo evidencia como a elite ilustrada, perdida após anos de rupturas intelectuais, ainda não chegou a bom termo quanto a suas idéias no presente; e demonstra como a pregação para convertidos, uma platéia cativa e domesticada, exige muito menos do orador, causando a falsa impressão de que o líder se encontra no esplendor da forma, na apoteose de sua inventividade. 


Não por acaso, o que se seguiu ao stand up do Príncipe de Guaranhuns foi a performance agressiva típica de seu Pinscher hidrófobo, chamando o público à ação do voto nos líderes trabalhistas, em ato explícito de campanha eleitoral.   


A fórmula é universal: primeiro a comoção, depois a ordem. 


 

 Mas como não notar o ridículo da grande peça de marketing? Como não notar a incoerência entre o ato de vangloriar-se por ter sido capa da revista da Time e o anti-americanismo histórico do partido?


Como não rir ante a ingenuidade infantil da provocação da suposta “inveja” quanto à publicação, cuja capa já estampou outras celebridades como Hitler, Mussolini, Stalin, Putin e Al Capone?


De que maneira disfarçar as críticas à ONU, “que não representa mais nada” e “não é levada a sério pelos governantes” quando ela, uma semana antes, era autoridade probatória de sua inocência?


É só mais uma sessão de bravatas, blagues e chistes no vasto repertório de histórias da carochinha do hóspede da Papuda. 


Em que pesem as contradições gritantes no discurso petista encabeçado pelo ex-presidente, a postura da esquerda não pode ser outra. 


Ou ela se mantém em estado perpétuo de revolução, submetendo todos a um quadro caótico de convulsão social constante, ou assume sua condição de elite mandante do palácio, sob o teto de vidro da administração pública.


No primeiro caso, em nome da coerência interna dos ideais do movimento, fazendo valer a máxima de Trotsky de que a causa nunca é a causa, mas a revolução, quem paga as contas é a população, reduzida à condição de massa de manobra e cobaia de experimentos sociais.


No segundo, em respeito à realidade, a nova elite mandante se assume como classe bem definida, caracterizada não só pela oposição à antiga, mas pela agenda objetiva que motiva sua vontade de poder — perdendo assim, no entanto, a autoproclamada autoridade moral que lhe permitia justificar os meios pelos fins.


Perdida em suas contradições internas e sem uma tese central que lhe dê rumo, resta à elite esquerdista a embriaguez do discurso de palanque. Reduzida à mingua sem a comedeira de verbas para cultura, a universidade, os sindicatos e a mídia, tonou-se também intelectualmente impotente, abraçando de vez a militância sem constrangimento. 


Sinal inequívoco de um estado de histeria, a fuga voluntária da realidade, a negação do fracasso e de falhas graves leva, natural e retroativamente, a um reforço compensatório de qualidades inexistentes e imaginárias, seja para embelezar a imagem de si diante do espelho, seja para aparentar normalidade aos presentes.  


E assim, sonhando com os sinos da glória da inauguração de uma nova era, abandonam o leme da razão e dão-se por seduzidos pelo timbre da sereia. O canto suave que precede o naufrágio da barca do lero-lero.