Struggle, na Netflix — A vida e a Arte de Stanislaw Szukalski

Assisti na sexta-feira, por indicação de um amigo do Facebook, a "Struggle". Em português, "A vida e a arte de Stanislaw Szukalski". Muito bom documentário.


Szukalski foi um artista plástico, escultor e desenhista polonês radicado nos EUA. Sua obra, no entanto, perdeu-se quase toda na Segunda Guerra e com a invasão comunista na Polônia.


Como não teve o devido reconhecimento nos EUA, seu fim foi melancólico, solitário e frustrante. Após deixar a Europa, passou cerca de 40 anos desenhando foguetes, maquetes e projetos arquitetônicos para uma fábrica no sul da Califórnia.


Seu desgosto diante da vida e suas realizações não são juízo meu, mas um sentimento do próprio artista, que em diversos momentos da narrativa lamenta e chora copiosamente pelos rumos que sua carreira tomou.



Pesaram contra ele a origem polonesa, o nome de difícil pronúncia e sua estética toda original, sem finalidade específica na terra dos enlatados e da indústria cultural.


Sem apoio, sem materiais, sem contatos e um ambiente receptivo à sua arte, restaram a atividade profissional formal e seus estudos autônomos em mitologia, antropologia, e antropologia e história da arte.


Se o leitor não conhece Szukalski, não será difícil encantar-se com sua obra somente pelo documentário, ainda que retratada somente por fotos. Seu traço é poderoso, em tudo nele há o ímpeto jupteriano de grandeza, um esforço dionisíaco de potência e nobreza. 


"Struggle", 1917.


Os mais acanhados chamá-lo iam megalomaníaco; os conservadores, um subversivo; os tradicionalistas, um gnóstico herético. No entanto, é somente diante de um ato da vontade individual que as categorias acadêmicas cedem espaço à força da personalidade e à liberdade de espírito, para que a nova criatura conquiste seu espaço na ordem dos eleitos.


Seu mérito origina-se da síntese, da compactação, da fusão de famílias espirituais e estéticas que resulta num composto indivisível, cujas partes não têm autonomia. Como Marinetti, Pamprolini e Dulgherhoff, seu revestimento é industrial, urbano, cosmopolita e não pára. Como Ungaretti, Herman Hesse e Kazantzakis, o temperamento é nietzscheano, iconoclasta, altivo e aberto às possibilidades da experiência; um estado de espírito aristocrático.


Da renascença absorveu a predileção pela anatomia, e da antropologia, o fascínio pelo antropomorfismo, a mitologia tribal e a miscigenação. A busca pela origem primordial do homem foi sua obsessão. 


Detalhe de "Kopernik", 1940.

Um encanto que conservou até o último suspiro, e cujos frutos podem ser verificados numa pesquisa incansável de antropologia da arte que reúne aproximadamente 40 volumes, e abrange desde análises de fotos de propaganda de margarina a runas primitivas pré-colombianas. 


Sua tese: todas as etnias eram herdeiras de uma matriz genética fundamental, uma raça única originária da Ilha da Páscoa, no Pacífico Sul.


Partindo dessa hipótese, Szukalski à maneira de um Schuon, buscou demonstrar como em tudo havia uma representação analógica de um mesmo fenômeno — neste caso, o homem —; seja na língua, nos traços do rosto, na postura da coluna ou no signos de seus respectivos alfabetos e fonemas — algo como uma unidade transcendente dos ancestrais. Vale cada minuto.