Você tem ou conhece alguém que tenha síndrome de Peaky Blinder?
Com certeza, você já deve ter notado que há uma certa movimentação nas redes em torno do tema da masculinidade e da virilidade. E você está certo!
Tornou-se um nicho de mercado, um tema de debate, uma afinidade eletiva.
O feminismo e a revolução cultural contribuíram para acirrar os ânimos. Mas a reação tornou-se, também, um problema.

Ocorre que, quando um comportamento espontâneo e orgânico, por assim dizer, emerge como idéia, modelo arquetípico, é porque ele já deixou de SER.
Já não é mais parte integrante da personalidade, dos trejeitos, dos costumes inconscientes e consolidados em determinada comunidade.
Você já deve ter visto várias dicas e recomendações de como se portas, do que comer, do que dizer, de como se vestir, sobre como dormir.
Por exemplo: aquele pessoal que acha legal comer ovos com bacon e fumar cigarro como sinal de masculinidade ou coisa assim.
Ora, antigamente todo mundo fumava e comia ovos com bacon nos EUA, de onde saiu esse arquétipo, não por uma idealização, mas porque todo mundo simplesmente... fumava e comia ovos com bacon.
Meus avôs, no entanto, aqui no Brasil faziam outras coisas. E não eram menos “homem” por isso.
Aqui, os costumes eram outros. Por exemplo, era normal utilizar gordura de porco para tudo na culinária, inclusive para conservar a carne, pois o país era majoritariamente pobre e muitos sequer sonhavam em ter uma geladeira.
Tudo isso remete a um passado "rústico", bruto, heróico, que se perdeu. Mas isso é uma abstração, uma associação feita por quem olha de fora e conceitua uma realidade virtual.
É ver o homem como "idéia", e não como ser.
Quem viveu essa realidade, apenas a viveu plenamente sem torná-la em momento algum um “estilo”.
Um dos meus avôs, por exemplo, foi para a guerra. Não porque era frio, calculista, sistemático. Foi porque quis (ele foi como voluntário), por senso de dever e ponto final.
O outro era operário de uma fábrica de pios de caça. Vivia no MS, em ranchos, em beira de rio, em florestas, acampando, pescando e contando causos com seus companheiros de fábrica e viagem.
Então eles não mentalizavam isso. Eles apenas viviam essa realidade, sem jamais conceituá-la e refletir o que estavam fazendo ("Vestir-se de tal maneira, comer isso e aquilo, fumar ou tomar cachaça/whisky/bourbon é ser homem?"), com a naturalidade de quem respira.
Quando isso começa a acontecer, a abstração e a defesa retórica do modo de ser, é porque a naturalidade desse modo de ser já se perdeu.
Ele torna-se então um “estilo”, uma gourmetização, uma moda à escolha, bem ao gosto da “identidade líquida” de que fala Zygmunt Bauman.
Como se a vida fosse um mercado de aparências; você compra um kit, se fantasia e por mágica se torna aquilo que quer imitar.
Como já não há modelos que são transmitidos naturalmente pelo convívio, o sujeito precisa absorver um modelo virtual, histórico, literário, hipotético, etc.
Precisa assimilá-lo novamente até que ele se naturalize, se reproduza e se integre inconscientemente no modus vivendi dos indivíduos novamente. Seria esse o caminho saudável.
Mas o que vemos?
Marketing para vender blend, pomada e creme de barba; dicas de “modéstia” masculina; MGTOW’s; dress codes de como vestir-se de vovozinho, lenhador urbano ou executivo financeiro; barbearias com estética de botequim, oficina ou puteiro.
Enlatados para suprir esteticamente o vazio de uma personalidade de isopor.
Eles partem do princípio de que a crise é externa a eles, de que estão safos e de que eles é que estão conduzindo à solução; quando na verdade estão apenas delirando, pensando alto e projetando uma fragilidade existencial travestida de masculinidade.
Com a internet, aliás, isso está criando malucos em série.
Ou seja, o esteticismo masculino é ele próprio um sinal de crise. Um fetiche anacrônico e descolado da realidade.
Ele é reflexo mesmo da crise que busca denunciar, pois no ímpeto de ditar, postular, determinar, descrever e recomendar posturas, gestos, formas de agir e pensar, ele revela involuntariamente que o aspirante a "macho alfa" não está sendo na prática, em sua essência, aquilo que verbaliza.
Porque quem está comprometido em ser alguma coisa normalmente não tem tempo para falar tanto em como ser essa coisa.
Existe algo em comum no homem de todas as épocas, que não é necessariamente esse produto que tentam hoje vender.
Esse algo se manifesta de acordo com o que a circunstância exige dele. Reflita sobre a sua circunstância e aja de acordo. Não existe manual estético do bom moço.
É nesse sentido que o professor Olavo de Carvalho sempre recomendou que se deve prometer “ser". Sejam; não falem. Façam; não declarem intenções.
Prometam ser e sejam, em silêncio, e pronto.
A internet está recheada de conteúdo, de manuais e tutoriais sobre como ser um hominho de respeito. Há toda uma fauna de palpiteiros, coaches, influenciadores e também picaretas dizendo o que você tem de fazer.
E você com certeza conhece alguém que o faz.
Assistimos todos os dias ao desastre moral que é a sociedade brasileira; os espetáculos mais vulgares, a baixaria generalizada, drogas, hedonismo, o culto exacerbado da aparência etc.
É impossível não notar a influência que essa debacle exerce direta ou indiretamente sobre todos nós.
Se os formadores de opinião refletem as correntes dominantes de pensamento e comportamento, então deve-se reconhecer que o homem-massa de hoje tem uma psicologia existencial bastante rudimentar.
É idólatra de sua própria imagem, narcisista, e se comunica de maneira muito precária, mesmo nos assuntos mais complexos.
As redes bombardeiam com imagens vivas o espetáculo dessa miséria moral, dessa pobreza e dessa grosseria afetivas.
Isso tudo, no entanto, tem um efeito rebote terrível; incita a uma reação neurótica, a uma rigidez paralisante e a um idealismo falso e inconsciente.
Por isso aqueles que não têm referências reais, materiais, vivas, vão tentar encontrá-las por aí afora.

E acabam é encontrando conforto naqueles que vivem de recomendar adornos, penduricalhos e dicas totalmente descoladas e estranhas a sua circunstância concreta.
E a expressão mais evidente desse fenômeno é o esforço de comunicar pela aparência algo que o sujeito quer parecer que é, para que os outros o enxerguem daquela maneira.
É aí que se instala o espelhamento neurotizante onde todos parecem avatares ambulantes, pré-moldados saídos de uma linha produção em série.
É o que acontece quando não há uma relação íntima entre o que o indivíduo é no anonimato e em público, quando não pratica e vive sinceramente aquilo que busca desesperadamente parecer ser.
Entendem?
Um motoqueiro não usa jaqueta de couro à toa; assim como um lavrador e um peão não usam bota e canivete para parecer o John Wayne, mas devido à condição real de sua atividade, de seu lugar no mundo.
Agora, o que dizer de um padre, celibatário? E dos evangélicos, 40 milhões que movem o país, abstêmios? São frescos por isso? Menos “homem”?
E os militares, que não têm barba de lenhador de shopping center, cliente de barbearia com estética de botequim gourmet, como ficam?
E quem mora na praia, num sol de 35º, tem de andar de fraque para parecer o modesto da paróquia? E se o sujeito for pobre, aliás, e não tiver sequer condições de alinhar-se conforme o que você acha que é obrigatório e indispensável?
![MODÉSTIA MASCULINA: [Sermão] A Modéstia no vestir](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhA83DqT5FshBjGfXHu-LAs5g9u9G1soS76Nv4O6rE9nbTMjZHq_f66g7tO6zmvb3WjNEhU7mgo8cfSYlE0hYr34F5ylRlJ2EpkwN6c4BCcIdLpmVi3FBX-GjzVmpeCtlgUhOXaEJlkyNY/s1600/tumblr_lxpv1dxaid1qg4knho1_500.jpg)
Percebem como, ao ampliar as comparações, todos os critérios puramente estéticos para descrever o indivíduo se desmancham como garoa na vidraça?
Percebem como tudo isso é postiço e artificial? Percebem como sustentar uma personalidade a partir da aparência é tão consistente quanto construir um castelinho de areia à beira da maré alta?
Percebem como tudo isso é postiço e artificial? Percebem como sustentar uma personalidade a partir da aparência é tão consistente quanto construir um castelinho de areia à beira da maré alta?
Afinal, você quer ser alguém ou se fantasiar de alguém?
Há uma diferença sutil entre a expressão aparente de uma identidade e a real personalidade de um indivíduo.
Ou seja, no limite, é você quem deve identificar o que em você é estético e o que é prático; o que é forma, e o que é substância.
Não há manual para isso, a expressão da personalidade floresce desde dentro, assumindo características distintas conforme o ambiente, as preferências, os valores e necessidades de cada um.
O que há, no entanto, em geral, é uma conformação natural entre o comportamento, a função social do sujeito, e o que ele aparenta ser. O que ele comunica naturalmente simplesmente por existir e ser quem é.
Roger Scruton, que Deus o tenha em bom lugar, afirmou categoricamente em “Beleza” (Ed. Guerra e Paz, Portugal, p.87), que "podemos ter prazer com a aparência simplesmente pelo que ela é.
Os seres racionais têm, no entanto, uma necessidade inata de interpretar e, quando o objecto da sua atenção é uma aparência, interpretá-la-ão como algo que tem um significado intrínseco."
Porém, ao construir um simulacro de personalidade, como se por um passe de mágica sua aparência, sua fantasia de hominho sério, pudesse transformá-lo num Cavaleiro da Ordem do Império Britânico, o que você consegue é criar uma espécie de esquizofrenia.
Uma dissonância entre o que você é, o que você quer ser, e o que você quer parecer para os outros. É a "estética como ética"; uma construção artificial.
Você está perdidão, meu consagrado.
Você não se torna um pai de família íntegro e presente se fantasiando de figurante de novela de época, não se transforma num viking desbravador por causa da barba com creminho, nem vira herói vestindo cueca por cima da calça.
Você conhece um tipo que compra livros, cachimbo, boina, suspensório, pomada para o cabelinho; tira self com o copo de whisky e charuto.
Mas a verdade é que quando ninguém está olhando, com duas linhas do Curso de Estética de Hegel o sujeito tem uma congestão cerebral; um parágrafo do bom e velho Machadão o entedia, e ele acha que poesia é coisa de vagabundo.
Não há autenticidade alguma; é um bolo de noiva montado sobre uma estrutura de papelão. Para quê? Para impressionar a quem?
Em “A consciência de Si”, Louis Lavelle, um dos maiores filósofos do século XX, afirma que “a maioria dos homens deleita-se em se envolver em véus” (p.99).
Os “véus”, no entanto, deixam transparecer o corpo, o que está por baixo, o que é essência:
“Cada um de nós se veste com uma roupa de preconceitos e amor-próprio, uma roupa que dissimula nosso ser verdadeiro e da qual jamais não conseguimos nos despojar por completo.”
Eles criam nossa aparência e nosso prestígio; mas é embaixo da carapaça que encontra-se a “realidade tão sóbria, tão doce e tão móvel, tão alheia a qualquer ornamento”.
Ao lidar com nosso Eu mais íntimo, acabamos por evitar o confronto em busca de conforto, um abrigo, uma cobertura reconfortante feita de “um tecido ora rico, ora pobre”.
Lavelle então sentencia: mas o tecido é “sempre emprestado”.
O desafio é todo esse: parar de mendigar e de pegar personalidades emprestadas.