Imortalizado para o Iron Maiden, o dito é famoso: a banda é boa, os fãs são uma merda. A bem da verdade, a frase não é de todo errada, mas está certa por motivos equivocados, que não são associados às reais causas da montanha infinita de chatice que um fã de 12 anos com cabelo ensebado, ou um tiozão barrigudo pode produzir quando surge uma discussão sobre a banda.
Ocorre que quanto menos o sujeito entende os versos de Harris e Dickinson, mais chato e menos conhecedor ele fica, ainda que tenha todos os singles, bootlegs, camisas e pôsteres colados pelo quarto. Colecionar souvenirs e gritar e espernear com quem critica seu ídolo é o mesmo que acumular pedras para tacá-las em quem ameace seu deus. Da mesma forma que uma biblioteca doméstica de mil livros não lidos, só para exibi-los, não faz de alguém Umberto Eco, colecionar objetos não faz de dele um conhecedor do assunto.
O fato é que por se tratar de uma banda em que a virtuose não figura em primeiro plano, o Iron Maiden sempre teve um apelo popular muito maior do que diversas bandas posteriores, que seguiram sua tradição no heavy metal, mas ficaram cada vez mais carregadas com teclados, solos exagerados com função harmônica quase nula, cujo objetivo quase sempre consiste num exibicionismo de notas fritas. E o leitor sabe bem: quanto mais popular uma produção, tanto maior a sua capacidade de atrair as massas.
Dessa forma, despreocupados com a imersão real no conteúdo e nos temas intermináveis pelos quais passeia a obra da maior banda da terceira geração da British Invasion, e se apegando estritamente à forma, ao caráter “humano”, àquilo que ela tem de “melodramático”, como nos conta Ortega y Gasset em seu pequeno e precioso Desumanização da Arte, a maior parte do público é atraído por aquilo que é mais direto e assimilável: as guitarrinhas “grudentas” da introdução de Fear of The Dark, as letras sobre Satã para citar no colégio pra soar rebelde, individualista e contracultural dentro do grupinho de rebeldes individualistas contraculturais.
Se na década de 20 o filósofo espanhol já escarnecia da boçalidade geral das massas, que àquele tempo eram um tanto quanto mais civilizadas do que as de hoje (nos modos, no gosto, nos valores), caso ele viesse a conhecer o público geral do metal brasileiro, talvez lhe faltassem palavras.

Para Gasset, o prazer estético teria de ser um prazer inteligente. De modo que, no processo de contemplação do objeto, o sujeito deveria compreender não somente que estivesse posto, mas compreender a si próprio, o porquê e o que ele apreciava no objeto. Seja em termos sensitivos, afetivos, intelectuais, etc.
Ou seja, o indivíduo deveria gostar disso e daquilo e saber o motivo e o que exatamente aprecia nisso e naquilo. Exemplificando, o filósofo das massas distingue dois tipos de espectadores/observadores: um ganhador da loteria e um bêbado encharcado de álcool.
Enquanto o primeiro sabe o motivo de sua euforia, de seu prazer de ter ficado rico e como isso é emocionante, já que não precisou fazer quase nada pra ficar milionário, o que torna tudo mais fascinante, um bêbado é capaz de ver mais graça num tropeço de uma velhinha com um bebê nos braços do que ao assistir Monty Python ou ler Pietro Aretino.
Isso porque deve haver um nexo causal entre o prazer estético e o estado de consciência. A motivação prazerosa que flui do objeto para o sujeito deve ser percebida pelo observador e o prazer espiritual deve ser perspicaz (intelecto) e não mecânico (embriagado, falso). O que acontece com o novo milionário, segundo Gasset, mas não com um bêbado que ri de qualquer coisa.
Quando fãs reduzem todo o universo de mitos, guerras, filosofia, religião e literatura incluso na obra do Iron Maiden ao nível vulgar da metaleiragem geral, baixando o sarrafo do debate para a pura competição de quem é mais pesado e agitado, “brutal”, faz exatamente o jogo dos molóides ignorantes. Quer sacudir o esqueleto? Vá a um bailão.
Assim, os fãs vulgares acabam fazendo as vezes de todos os apreciadores conscientes, pois tomam o pior pelo melhor e não sabem (nem conseguem) expor aquilo a que a Donzela de Ferro tem de mais digno: a participação numa tradição de 2400 anos de cultura, filosofia, história, religião. Ou mais alguém transforma a Paixão de Cristo num hino do metal?
"Sign of the Cross
(…)
They’ll be coming to bring the eternal flame
They’ll be bringing us all immortality
Holding comunion so the world be blessed
My creator, my God, lay my soul to rest
The sign of the cross
The name of the rose
A fire in the sky
The sign of the cross
Lost the love of heaven above
Chose the lust of the earth below
Eleven saintly shrouded men
Came to wash my sins away"
"Sign of the Cross
(…)
They’ll be coming to bring the eternal flame
They’ll be bringing us all immortality
Holding comunion so the world be blessed
My creator, my God, lay my soul to rest
The sign of the cross
The name of the rose
A fire in the sky
The sign of the cross
Lost the love of heaven above
Chose the lust of the earth below
Eleven saintly shrouded men
Came to wash my sins away"
O Iron Maiden é incansável. Mesmo nos discos menos competentes, a reserva moral do heavy metal bretão consegue se elevar (e muito) acima da média. É simplesmente fascinante o volume de recursos a que a trupe de Steve Harris pode recorrer numa única faixa – ainda que menor no panteão de clássicos.
Em Dance of Death, por exemplo, Bruce Dickinson encarna a figura a eterna do bardo, numa tradição que vai de Homero a Virgílio, de Chaucer a Ezra Pound, passando pela cultura nórdica e as trovas medievais. O eterno orador. Ao recitar a plenos pulmões uma letra que deveria ser cantada, o vocalista nos dá a clara impressão de que está a nos contar um causo. E é justamente isso! “Let me tell you a story to chill the bones/About a things that I saw…”
Nos convidando para dança macabra no meio da floresta, onde os mortos vão chegando pouco a pouco, veremos em breve em algumas estrofes a mudança narrativa que passa da curiosidade ao terror e nos envolve na conversa – para quem entende o que está sendo dito: “They had ascended from hell/As I danced with the death!” Tudo isso harmonizado com um folk muito simpático, que aos poucos nos conduz à tensão da história acompanhada pelo canto, como se estivéssemos em torno de uma fogueira ouvindo as velhas histórias da tribo.
São sutilezas como essas, embora não emplaquem clássicos, que nos levam a renovar o gosto e admiração pela banda ao longo dos tempos. Sutilezas capazes apenas por quem não tem a ânsia de impressionar. Por quem consegue traduzir sofisticação com simplicidade e fazer o povão imergir numa tradição sem sentir o peso de uma alta cultura de milênios.
Se em Sign of the Cross, temos a morte do Messias como narrativa redentora da existência humana, encerrada no símbolo da cruz e a missão dos apóstolos em espalhar seus feitos e ensinamentos, e em Dance of Death temos a representação estética do folclore bretão, em Revelations temos a síntese de ambas.
Baseada na última parte da Bíblia, o Apocalipse, sua introdução, “Oh God of Earth and Altar(…)” é parte de uma oração, um hino, escrita por G. K. Chesterton, escritor e apologeta católico. A leveza da versificação e a potência da recitação de Bruce revelam a beleza da poesia quando feita em seu propósito original: ser falada e não apenas lida, pois “ela liberta os homens da noite animal, do terror primitivo que isola e paralisa. Ela reúne os membros da tribo em torno do fogo aconchegante e os faz participar de um universo comum que transcende as barreiras dos corpos e do tempo. Ela apazigua, reanima e torna possível, aos que eram animais assustados, pensar e agir”, como nos ensina Olavo de Carvalho.
Novamente se dirigindo a Deus, Bruce entoa os primeiros versos chestertonianos em solo de capela, daí então prossegue junto com a banda o conflito existencial que caracteriza a letra: somos nós quem embaralhamos nossa própria existência, e embaraçamos os laços do destino com nós de orgulho, ganância e outra vilanias fruto das paixões mais baixas. Ou seja, “It is You”; mas que Deus nos ajude.
"O God of Earth and Altar
Bow down and hear our cry
Our earthly rulers falter
Our people drift and die
The walls of gold entomb us
The swords of scorn divide
Take not thy thunder from us
But take away our pride"
"O God of Earth and Altar
Bow down and hear our cry
Our earthly rulers falter
Our people drift and die
The walls of gold entomb us
The swords of scorn divide
Take not thy thunder from us
But take away our pride"
Em 1984, o Donzela lança Powerslave, um disco inteiro em prol da liberdade contra os totalitarismos do século XX, metaforizados pela grande escravidão egípcia que massacrou os judeus, o povo mais perseguido da história humana.
Em Aces High, a trupe de Steve Harris, introduz o álbum e a faixa com um discurso de Winston Churchill (aliás, talvez o único estadista com quem este escriba beberia uísque e acenderia um charuto), e narra, então, a ação do exército e da Força Aérea Real (a RAF, Royal Air Force), sob as ordens do primeiro ministro inglês e responsável pela derrubada do nazismo, deitando abaixo a Luftwaffe.
Ao fim do álbum, em The Rime of The Ancient Mariner, a banda adapta o poema romântico de Samuel Taylor Coleridge. A obra relata eventos místicos vivenciados por um marinheiro durante uma longa viagem pelo mar.
Sua história versa sobre uma jornada marítima, em que sua embarcação acaba seguindo à deriva por ventos e marés tenebrosas. Apesar de tudo ocorrer bem no início, o barco é desviado e vai parar na Antártica. É aí que miraculosamente surge um albatroz e guia os tripulantes.
Apesar da ajuda do pássaro e do carinho que a tripulação agora tinha por ele, o bardo marinheiro atira e mata o animal. Os outros ficam irados com o marinheiro, por acharem que o albatroz havia trazido os ventos que os levaram para fora da Antártica.
A malvadeza sem sentido desperta também a ira de Deus. Então, maus espíritos passam a perseguir o barco “a partir da terra do nevoeiro e da neve”. O vento que os afastava do gelo agora leva-os para águas paradas que os faz encalhar em alto mar por dias, sem vento – e sem mantimentos. “Água por todos os lados, nem uma gota para beber”.
O barco, então, encontra uma embarcação fantasma pelo caminho. A bordo estão “A Morte” (um esqueleto) e “O Pesadelo da Vida na Morte” (tão pálida como defunta), jogando dados, apostando as almas da tripulação. Ao fim, “A Morte” ganha a vida da tripulação e “A Vida na Morte” ganha a vida do marinheiro, um prêmio que ela considera mais valioso. Seu nome é um indício do destino do marinheiro: uma vida pior que a morte como punição por ter matado o albatroz.
Um a um, toda a tripulação morre, restando apenas o marinheiro, que vê por sete dias e noites a maldição nos olhos dos cadáveres de sua tripulação. Enquanto o marinheiro rezava, o albatroz ressurge milagrosamente e os corpos da tripulação levantam-se e guiam o barco para casa novamente, por fim afundando em um redemoinho.
O único que não afunda com o barco é o marinheiro, que é avistado por um eremita na terra. Este, com a ajuda de um homem e seu filho, vai ao encontro do marinheiro em um barco. No fim, depois de ser salvo por um eremita, é fadado a contar sua história por inúmeras vezes até o fim de sua vida.
O poema de Coleridge serve-se de libelo romântico contra as atrocidades políticas modernas e nos orienta a respeito da postura que devemos ter quanto à vida em sociedade e a consciência individual mesma: respeitar e zelar pelos responsáveis pela manutenção e preservação da liberdade e da vida, bem como perpetuar no imaginário coletivo a importância desses meios, desses agentes, desses albatrozes da civilização, sempre alvos das ideologias revolucionárias totalitárias ávidas pela recondução da embarcação que acaba por criar uma pilha de cadáveres.
Encerrada no simbolismo da ave, representando a liberdade e a sabedoria, a conhecedora da tradição e do caminho a conduzir os povos, o drama do marinheiro é o retrato das massas revolucionárias modernas, impacientes, inconsequentes e autojustificadas, desrespeitosas com as coisas mais comezinhas, como todas as formas de vida, que só após perceberem a falha brutal que cometeram, passam a retificar suas atitudes.
Condição de quem desafia o certo em nome do duvidoso e depois fica com o fado de reportar os próprios erros. Assim como o albatroz é a democracia e a liberdade que, tão nobres, cumprem papel fundamental para o surgimento de seus próprios algozes. E assim como o marinheiro somos nós humanos e o Iron Maiden, a olhar para trás, enxergando nossas falhas vergonhosas sem fim e aconselhando a todos que aquele erro não mais se cometa. Não matem o albatroz.
"The mariner’s bound to tell of his story
To tell his tale wherever he goes
To teach God’s word by his own example
That we must love all things that God made"
Powerslave é uma sofisticada opera rock, que abre sua tracklist com a vitória sobre o nazismo e a encerra nos lembrando com idealismo o drama de todos nós: não desfazer dos fatores que conservam nossa cultura e ordem, e mantê-los pulsantes no imaginário para que não nos rendamos a nossas paixões mais vis, para que não tenhamos de vencer um nazismo todo século.
Pois é para isso que serve a arte. Seja erudita ou popular. Para nos situar no contrato eterno que existe entre nós, o passado e o futuro que um dia irá olhar pra trás. Para nos orientar e ilustrar com habilidade a miséria infinita em que chafurda a vida humana, nos entregando uma saída decente para encará-la, eternizada em forma e conteúdo simbólico.
E assim ela segue eternamente num diálogo interno entre suas próprias expressões (música, literatura, religião poesia) e externas (história material e cronológica do homem), unindo história humana e história da arte, naquilo que Benedetto Croce chamou de “dialética do espírito” das obras de arte.
A quintessência artística que permanece no tempo, fazendo a ligação entre diversos autores, permitindo o encadeamento histórico deles, fazendo o “espírito” permanecer. O que Edmund Burke chamava de o “contrato da sociedade eterna”, que mantém a si e seus semelhantes cientes de sua adesão à “comunidade das almas”, que reside no reconhecimento de que a “consciência e a racionalidade não começam com o ‘eu’ ou com os contemporâneos”, mas interligam-se ao longo dos tempos.
A estética do Iron Maiden é muito atrativa, seja para adolescentes rebeldes ou para os tiozões de cabelo ralo que um dia seremos. Cumpre-nos solucionar o drama de Hamlet e encontrar a sabedoria antes da velhice, e apreciar o melhor que o grupo tem a oferecer. Um velho sem sabedoria e sensibilidade seria o resultado de uma vida fracassada. O público do metal no Brasil está longe de cumprir a tarefa.