Diário da Corte, de Paulo Francis - O Jornalismo Esclarecido no Tribunal da História

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O Brasil é terra onde a coincidência tem privilégio inigualável. A reincidência de fatos recorrentes, e a derivação destes em atos continuados agravantes, são encaradas como mera casualidade probabilística. Tão logo alguém se empenhe em demonstrar a correlação de um punhado de exemplos, será justiçado pelos tribunais da opinião pública, que o acusarão de ser o porta-voz de aluguel de algum grupo de interesses, de algum partido ou de uma outra turba qualquer. No Brasil, só não se pode falar em nome de si mesmo. Não cabe. Nem convém.

Nas faculdades de jornalismo, muito se discute a respeito do jornalismo ético, embora se passe ao largo sobre o que seja a ética mesma. Isso porque não faz parte das matrizes curriculares Brasil afora, calcadas numa noção da Comunicação como ciência social aplicada, a perda de tempo com silogismos em detrimento da produtividade e do deadline. Daí fica-se numa enfadonha discussão acerca de generalidades restritas à atividade profissional, como os limites das “câmeras escondidas”, a superioridade moral do denuncismo gratuito, a privacidade, o sigilo das fontes, “direitos humanos” ou “imparcialidade”. Nunca chegando à substancial discussão acerca do ser humano enquanto sujeito ético, o jornalista fora de serviço. O homem que carrega consigo responsabilidade independentemente da profissão e onde se encontre.


Desse modo, a única coisa que importa saber é se, em circunstâncias específicas, os sujeitos possuem (no caso, jornalistas), ou não, capacidade para discernir de acordo com as razões corretas; e que se não conseguem agir em conformidade com elas, é por um conjunto de vastíssimas razões raramente identificadas.

Do idealismo socrático ao imperativo categórico kantiano como princípio universal de ação; do agir racional como aperfeiçoamento da virtude moral aristotélica ao individualismo eticamente convicto de Max Weber, a história das idéias é repleta de tentativas de dar ao conceito da Ética sua parcela de contribuição para defini-la de forma mais concisa e abrangente, como conceito norteador para a vida. Coisa que a revisão de situações específicas em sala de aula jamais daria conta, pois são infinitas as situações humanas em que o homem deve decidir sozinho o que fazer, sem o testemunho ou apoio de terceiros.

O ápice da reflexão jornalística quanto ao assunto foi sair-se com a máxima “deve-se ouvir os dois lados”. E assim tem sido feito.

O que seria então do jornalismo de opinião e do jornalismo crítico se fosse a "ética", de fato, o princípio geral, quando no mais das vezes as únicas testemunhas do escritor são a própria consciência, memória e referências? O que fazer quando, já na raiz do ofício, a verdade é matéria relativa, e a objetividade, postura questionável? 

Sem dúvida, deve o jornalista ir à busca da verdade, sabendo ele e o público tratar-se de sua verdade, e os outros, se quiserem, que concordem. Esse será o princípio norteador, e a credibilidade do falante nascerá naturalmente de modo que se confirmem e se mostrem confiáveis os seus ditos. Todo excedente dessa dinâmica é de matéria jurídica, não jornalística.

No tempo em que autoridade significava de fato o que pretendia, e o autor agia como líder de suas próprias palavras, alcançando sucesso pela demonstração e consistência do que dizia, não como mero ponta-de-lança autorizado e legitimado por um grupo, Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, o Paulo Francis, falou de tudo quanto fosse possível numa coluna de jornal.

Com teor inconcebível para os dias de hoje, Diário da Corte (São Paulo: Três Estrelas, 2012) é uma amostra significativa do calibre da pena de Paulo Francis. O volume de 408 páginas, organizado e prefaciado por Nelson de Sá e que reúne 76 dos vários artigos que o jornalista escreveu entre 1975 e 1990 para a Folha de São Paulo, é o retrato dialético espiritual e intelectual do trotskysta expatriado na ditadura militar, que na América encontrou a terra das oportunidades, a eficácia do mercado, a pujança da vontade e o respeito aos contratos, em meio à alta cultura, “à montanha infinita de lixo que é a cultura pop” e à liberdade de escolha. “Pouco a pouco abandonou seu passado marxista e nacionalista, desenvolveu uma suspeita generalizada pelas ideologias”, como ressaltou Nelson de Sá, nas orelhas do livro. Em síntese, restou-lhe optar por conservar o que viu.

De sua corte aristocrática, seu apartamento na 46st com a 2nd Avenue, Francis desembaraçava o império para a Província do Sul, que ainda hoje se comporta como colônia – mas jurando, dedos cruzados, detestar sua metrópole no instante mesmo em que importa tudo de lá. “Se dei uma contribuição ao jornalismo brasileiro, foi a de desmistificar os EUA”, resumiria em 1983.

Deslizando com facilidade da crônica para a crítica; da opinião mais imediatista à análise mais profunda quanto viável; da informação pura à conversa de saguão com o leitor, Francis foi o missivista real da imprensa brasileira das décadas de 70 e 80. 

O estilo enxuto, de tiro curto, sempre recorrendo ao humor imortalizado n’O Pasquim – quando não ao puro deboche, tal o modo ao se referir a José Guilherme Merquior como “pivete” -, foi preservado do início ao fim, lhe rendendo a fama de polemista; não poupando ícones como Lula, Caetano Veloso ou Ronald Reagan. 

E como faz constar na contracapa de Luiz Felipe Pondé, “da hegemonia mundial dos EUA ao cinema de Coppola e Woody Allen, da crise do comunismo ao assassinato de John Lennon, dos impasses da redemocratização brasileira à ascensão de Lula no cenário político”.



São extremamente significativos, como demonstrações de estilo e traços de personalidade, para finalidades comparativas, os artigos "O Apocalipse, segundo Francis Ford Coppola" (“Ilustrada”, 26/8/1979), "Não quero saber da sua vida" (“Ilustrada”, 8/5/1978) e Loucos (“Ilustrada”, 21/11/1978).

Em 79, ao comentar “em tempo real” o lançamento da segunda obra-prima de Coppola, Apocalypse Now (1979), após sessão de estreia, Francis mostra por que era o homem que pautava a cultura impressa no país. Indo de Joseph Conrad a W.B. Yeats, de Renoir ao próprio Coppola, no mais puro exercício de comparatismo, Francis realça o caráter inovador de "Apocalypse", como uma obra “dura de doer” devido ao realismo que a nada compara em termos de abordagem do Vietnã, “O resto não passou de brincadeira ou lixo”. 

Para o jornalista, a viagem de Martin Sheen rio abaixo, em busca do inveterado Coronel expatriado e enlouquecido no Camboja, é a pura metáfora de uma passagem pelo Hades repleto de corpos, escuridão e de homens moribundos dispostos a matar por um maço de cigarros. Espólios e mazelas da guerra postos inteiramente na conta dos establishment Americano. “Quando e se algum dia veremos um filme do nível desse é coisa que não ouso especular”.

Se a erudição bem estruturada e sem exageros Francis demonstrava nos ensaios políticos e nos artigos sobre arte, o jornalista que citava Alexander Solzhenitsyn e Edmund Burke – homens mal-conhecidos ainda hoje neste país - parecia esquecer qualquer resquício de prudência ou bom senso ao se referir a pessoas.

Em "Não quero saber da sua vida", agora num monólogo de antropologia brasileira, Francis resume o que viria a apontar várias vezes sobre a sociedade brasileira: nosso talento para a mesquinhez, para dedicação de tempo e paciência ao que, literalmente, não interessa. Nossa pobreza espiritual, enfim. Na figura de Joaninha e Joãozinho, ele encarna a metáfora do tipo brasileiro tão comum nos jantares inteligentes de que fala Luiz Felipe Pondé; pessoas de classe média alta que se libertaram das amarras de um moralismo medieval e encontraram então a libertação sexual e os progressismos da modernidade.

 

Um tipo inconveniente, como um padre rebelde fugido a pique do seminário, para qual toda hora é hora de falar de sexo e suas intimidades descoladíssimas, mesmo entre desconhecidos. Para o qual a maior demonstração de conservadorismo reacionário é qualquer resistência ao assunto. “A moda é que perfeitos estranhos (ou estranhas), depois de alguns minutos de papo, passem a contar o que passa nos seus leitos conjugais ou não, seus problemas de análise (psico), não lhes ocorrendo que não tenho o menor interesse nisso.” Como se adultério, incesto, homossexualidade e pedofilia não viessem já de eras abraâmicas.

Não querendo fazer bandeira para o moralismo ou para intolerância, Francis traça, no artigo, a linha tênue entre a desenvoltura e a inconveniência. Situação para a qual a solução ele resumiu na assunção de uma “vocação aristocrática”, no seu caso, entendida com “limitação rigorosa de simpatia com o próximo”. “Procuro tratar todo mundo com respeito e cordialidade, mas não quero intimidades”. Parece justo. Moderninhos falam demais.

A tipos intelectualmente irrelevantes como Caetano Veloso, Lula e Joaninha e Joãozinho, Paulo Francis recorria sempre que precisava de exemplos antropológicos para ilustrar o Brasil. E normalmente com algum desprezo, mas não sem seriedade. 

Já aos tipos intelectuais, era capaz de disparar o que de mais cáustico dispusesse de munição. Eis o terreno em que sua consciência demonstrou uma vez mais a capacidade de voltar atrás. O approach de humanista liberal se manteve do início ao fim, o aristocratismo também, mas do terreno estético ao científico, sai-se do gosto para o objetivo. E Francis saiu do esquerdismo trotskysta para o liberal-conservadorismo americano. 

Houve duas vezes em que Paulo Francis ficou marcado por falar de Roberto Campos, economista, diplomata e Ministro do Planejamento do Brasil: quando o zombou e quando lhe pediu desculpas. Na primeira, chamando-o de louco incapaz de ocupar cargo na cambaleante economia brasileira que se avizinhava com a crise do petróleo: “Espero que ele [General Figueiredo] tenha o bom senso de não nomear o sr. Roberto Campos para o posto financeiro”. Na segunda, se desculpando para o homem que, num país de reacionários e estatistas às mancheias, deu voz ao liberalismo econômico, à modernização do mercado e ao avanço rumo ao capitalismo.

“Escrevi coisas brutais sobre Campos. São erradas. Retiro-as. ‘Como eu não ia dizendo…’ Acontece. Nunca tive a pretensão de ser santo milagroso. Corro os riscos que sempre levam a erros. Isso não quer dizer que eu assine o que Campos representa na vida brasileira. Não assino o que ninguém representa. Mas cheguei à conclusão de que capitalismo num país rico é opcional(…). Capitalismo no Brasil é uma questão de sobrevivência.” (O guerreiro Roberto Campos. “Ilustrada”, 9/2/1985).

Os vai-vens da retórica de Francis revelam um homem lúcido e cônscio de suas capacidades. Muito embora às vezes desbocado e propenso a arroubos da juventude, ali morava uma consciência.



Nos vastos diálogos sobre o agir ético dispostos nos manuais, os esforços giram em torno de estimular a capacidade que permite ao indivíduo adquirir crenças verdadeiras em vez de falsas, e de crenças boas em vez de más e, conseqüentemente, fazer o bom uso delas. 

De modo que, diante de situações limítrofes, em que o instinto mais canino o impulsione a tomar uma decisão a toque de caixa, a razão o aparte da impulsividade, orientando-o à ação racional e de caso pensado. Sócrates não negou a verdade nem mesmo para sobreviver, provou e morreu do veneno de sua própria ideia. O “santo leigo”.

Em meados da década de 90, já fora da Folha e jornalista da Globo, e do GNT no dominical Manhattan Connection, Francis escangalhou a Petrobras, expondo-lhe as entranhas de petrolífera decadente, cabide de empregos e meio escuso de negociatas, tendo valores na casa do 50bi desviados para Suíça. Ganhou com isso um processo milionário nas costas que, dizem, foi o sufoco que lhe tirou o último suspiro. Não sendo jornalista investigativo nem repórter, Francis via o cenário, mas não tinha os detalhes. Agiu por impulso, e não por razão.

Para o falante, dizer “eu avisei” é sempre motivo de regozijo de um esforço preventivo certeiro, embora venha a reboque também a decepção da tragédia anunciada. No Brasil, a aritmética do ódio nos mostra que tanto mais é odiado o sujeito quanto mais verdades antecipadas ele profira ou mentiras ele desmascare. Se Francis tinha um defeito, era, às vezes, falar demais. E nem por isso estar completamente errado.

Hoje, com atraso geológico, vemos como se encontra nossa "petrossauro", como costumava chamá-la Roberto Campos, e vemos que Francis, tão detestado pelas massas militantes depois de sua guinada à direita, estava certo – mais ou menos certo. Como disse Lucas Mendes, Francis era bom de letra, mas ruim de número. 

Tratou-se, portanto, de uma ação intencional, mas irracional, pois o sujeito agiu contra aquilo que ele próprio havia deliberado como sendo o melhor, o que em filosofia se chama acrasia. “Meu jornalismo não é de cor amarela”. Via o cenário, mas não tinha os detalhes. 

Em 1997, o Brasil perdia parte de sua originalidade, de sua opinião, do ímpeto autoral e da independência no jornalismo. 

Disse Otto Maria Carpeaux sobre a morte de Sócrates, o filósofo "corruptor da mocidade": “a sentença foi executada. Mas a revisão do processo começou logo depois, continuando até hoje”. Morreu Sócrates, morreu Francis. A Petrobras vive, mas a verdade dita vive também, agora escancarada e respondendo a processos.

No dia seguinte, seu processo, assim como o do filósofo, começou também a ser revisado. No tribunal da história do jornalismo, sem dúvida, Francis foi absolvido.