Exibidas nas salas mundo a fora em 1997, Desconstruindo Harry é a tragicomédia do moralista moderno e incompleto, mais precisamente de Harry Block, um escritor em crise criativa que não consegue mais produzir nada que lhe pareça digno. Que incapaz de criar, perde o diferencial e cai na mesmice de todos os mortais: ter na mediocridade da própria existência a única inspiração para trabalhar, já que a imaginação e as referências lhe estão em falta.
Estagnado, perseguido por ex-mulheres e rejeitado pela família judia ortodoxa, o personagem prostra-se diante de seus questionamentos. O iconoclasta, cético e inseguro, não consegue manter-se em rotina, sofre com relacionamentos e está sempre em conflito com seu trabalho, seja por cansaço, insatisfação ou pela pamonhice que o caracteriza. É o judeu nova-iorquino neurótico e fracassado de Allen.
Estão lá também os outros clichês de Woody – não sendo isso algo pejorativo -, como os clássicos créditos iniciais, com seu fundo preto sob as letras brancas, e a trilha sempre divertida recheada pela Era de Ouro do Jazz (1940′s) e com as canções populares norte-americanas. A novidade fica por conta de The Girl From Ipanema – sim, aquela nossa – interpretada por Stan Getz.
Na trama, embora seja penosa a condição psicológica de Harry Block, Woody retrata o personagem com refinada ironia, caracterizada na maioria das vezes pelo auto-deboche e pelas interrogações sutis feitas por Harry aos costumes da tal sociedade pós-moderna – como a mudança de valores morais, o consumismo alienante e a inconsciente disposição a transgressões, muitas das vezes, não mais do que infantis. O Sujeito está em crise.
Dizia Søren Kierkegaard, filósofo para o qual não faltaram problemas existenciais, que o humor é ainda insuficiente para encontrar sentido na existência terrena, é preciso dar o salto da fé e apostar na existência de um ser superior. A única via possível. Este salto é justamente o que Allen não se permite realizar. Antes usa a angústia para fazer piada. Woody prefere persistir no paradoxo, prefere o nonsense, prefere o humor que mostra toda a nossa insignificância. Harry é esse paradoxo, moralista no pensamento, canalha no ato.
Judeu errático, Block usa a própria irmã para fazer troça da religião: “Deixe-me perguntar: se um judeu é massacrado, pra você isso é pior do que se fosse um cristão, um negro ou um bósnio?” ao que a irmã responde “Sim, eles são o meu povo”. Harry sentencia: “Todos são teu povo”.
Esses conflitos com a família, mulheres, sociedade e consigo mesmo são todos transferidos às suas histórias, onde Harry, literalmente, macaqueia as pessoas que o rodeiam. Algumas de suas personagens literárias funcionam como alter egos e refletem no papel seus dramas, que para ele eram supostamente puramente fictícios. Ao que seus parentes e amigos discordavam e notavam claramente suas personalidades – tanto deles próprios quanto a de Harry – expostas nas tramas, embora as personagens recebessem outros nomes. É neste ponto em que há a desconstrução que dá nome ao filme, suas características, suas idiossincrasias, suas neuroses são esmiuçadas nas histórias, para cada anedota na vida real, há uma história contada nos livros.
São justamente as histórias de seus personagens, seus alter egos projetados em sua literatura, reflexo de sua própria vida, que narram esse processo de crise em busca de paz e quietação da mente e espírito pelo qual passa Harry. Entre uma visita e outra ao seu analista, os micro contos surgem, e com Harry os narrando do divã, a história como um todo se desenrola. Estruturalmente, há várias pequenas histórias compondo a narração, mas todas elas remetem a um todo: a mente de Block.
Intérprete dos estudos dos gêneros literários de Aristóteles, o crítico literário Northrop Frye catalogou, segundo o poder e as virtudes dos personagens e heróis, as cinco narrativas ficcionais possíveis encontradas no mundo, em escala de grandeza. A saber: Mítica, Lendária, Imitativa Elevada, Imitativa Baixa e Irônica. Sendo esta última caracterizada pelo personagem estar abaixo da situação, não tendo capacidade de lidar com disposição das coisas ao seu redor, o parvo completo. Um homem ordinário. Se na narrativa Mítica a personagem é um deus todo-poderoso – a força máxima possível -, na Imitativa Baixa, quase Irônica, de Desconstruindo Harry, temos Harry, o pamonha.
O desfecho encontrado para Block segue a regra de seu ridículo – e sempre irônico –, no filme. A mesma regra sempre adotada por Allen: o non sense. Olhar para Cima fica para mais tarde. Por enquanto, olhemos pra nós mesmos, fiquemos aqui com nossa pobre existência e nela encontremos a solução de nossas angústias. E com humor, que é pra não sofrer.
