O Júri, de John Grisham – Mais do Mesmo na Indústria da Fumaça Cultural

No rastro da fumaça ejetada pelo politicamente correto nos últimos tempos, lembrei-me de ter terminado recentemente O Júri, livro de 1996, de John Grisham. Editado pela Rocco, com tradução de Aulyde Soares Rodrigues, os 43 capítulos trazem o fumo como base de sustentação para a trama. Não é obra de fôlego, apesar de suas 506 páginas, e qualquer fumante é capaz de consumi-la em poucos dias.

Nascido no Arkansas, e formado em direito pela Universidade do Mississipi, a atividade de advogado influenciou a temática de quase toda a obra de Grisham. Buscando esmerilhar as brechas do sistema jurídico americano, e contando com longo tempo de carreira e experiência pessoal, Grisham conta com uma equipe de pesquisas que sustentam sua narrativa recheada de dados e informações de bastidores. Daí a riqueza de detalhes das descrições feitas - com dados, nuances e a revelações de que muitas vezes beiram a não-ficção. Descrições que que se nada revelam para além do contexto da própria cena a que querem aludir, caem como uma luva para as adaptações cinematográficas feitas com quase todos os seus escritos.


No romance em questão, o advogado Wendell Rohr e sua equipe de magistrados, representando a família Wood, entram em litígio contra a indústria do tabaco pela morte de Jacob Wood, que partira após anos de pitadas incessantes, deixando filhos e esposa. A multa milionária exigida, além da punição ao grande conglomerado do fumo, abriria um flanco jurídico tão profícuo quanto uma mina de rubis; havendo um precedente de condenação por morte de consumo de tabaco em processos civis, outros tantos singrariam na mesma empreitada em busca de, senão justiça, um pé de meia rechonchudo. É esta tensão pecuniária que põe no centro da roda de negociações a grandiloquência na escolha assertiva dos 12 jurados que compõem a bancada.

Do outro lado da trincheira, representando a Big Tobbaco – termo atribuído aos grandes produtores de cigarro –, Durwood Cable, como advogado de defesa, e Mr. Rankin Fitch e sua vultosa equipe de “consultoria” de jurados. Verdadeiros espiões-detetives, a turba fitchiana conta com hackers, fotógrafos, grafólogos, psicólogos e toda uma parafernália tecnológica que lhes permite deduzir de antemão desde a posição política à crença religiosa, e do sorvete preferido ao tipo sanguíneo do jurado em potencial. Tudo em prol da escolha assertiva daqueles que, a priori, seriam a favor das cigarrilhas, no julgamento. 

O livro pouco nos diz, pouco traz de subjacente, além de seu politicamente correto encrustado na moral da história. Embora se ouça de lá e de cá todo tipo de argumento, a narrativa mais se parece com uma grande reportagem. 

Nenhum grande discurso ou depoimento ascende a algo mais – não há universo onírico algum. Todo esforço retórico se mantém no plano dos negócios e alcançam no máximo boas discussões sobre liberdade... de consumir. Médicos, marqueteiros, especialistas em geral, pesquisadores, publicitários, empresários e lobistas se contorcem para fazer a cabeça do júri com seus depoimentos. 

A narrativa segue a máxima do “não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de dizeres”, entretanto prevalece a tática de Churchill (obrigado, Paulo Francis, pela citação), de achar “muito razoável que numa reunião todos tenham a hora e oportunidade de se manifestar por algum tempo”, mas que no fim, concordem com ele.

E o resultado é o mais provável: politicamente correto. Tem-se tornado comum falar mal dos cigarros. Mas não arrisco aferir a causa e consequência, se o público exigiu ou foi direcionado a isso. Na visão de David Musto, professor de história da medicina da Universidade de Yale, o movimento contra o consumo de tabaco (álcool e outras drogas) é cíclico, de aproximadamente 70 anos cada, e vai da condenação extremada até simpatia ao cigarro. De acordo com Musto, a atual onda começou por volta de 1980 e vai durar até a primeira metade do século 21. 

Apesar da precisão e sagacidade dos diálogos, como é usual de toda obra que tenha como base o Direito, tem se tornado, de modo geral, fastidioso reservar algum tempo a obras que envolvam o cigarro como tema. Independente da forma que assuma, o sentido será o mesmo, mais do mesmo. A literatura enquanto arte – considerada como tal – deve ter a liberdade de divergir sem compromisso algum da realidade e do discurso hegemônico. Tem ela própria a autonomia de fazê-lo, embora o público concorde ou não, literatura está para o gosto e apreciação, não para concordância. 

A ANVISA deveria fiscalizar isso, ficando a indústria cultural mais tediosa, a decepção fará as pessoas fumarem mais.