Uma data para recordar: Jimi Hendrix e Paranoid, do Black Sabbath

Dezoito de setembro, além de trazer a triste lembrança da morte de Jimi Hendrix em 1970 - o que por si só, já renderia uma postagem - também ficou marcado também por um nascimento

E não é do Band Of Gypsys do próprio Hendrix que falo, muito pelo contrário, nessa o guitarrista ficou mais marcado nessa época pelo fiasco que impuseram a sua carreira - por questões raciais, e não entendimento de sua proposta  como artista e músico - e pelo aborto do disco que não saiu, com Miles Davis, que seria gravado no Carnegie Hall


Enquanto Jimi era encontrado morto e afogado em vinho, num quarto de hotel, Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward eram encontrados nas prateleiras de todo o Reino Unido com o nomes envergados na contracapa do segundo LP do Black Sabbath, Paranoid - somente 4 meses depois ele seria distribuído nos EUA e, consequentemente, para o mundo.

Paranoid, como já dito e todos sabem, não foi o primeiro disco do Black Sabbath. O álbum primo, homônimo à banda, é um marco na música. Gravado em apenas 8 horas, é o disco que apresenta suas credenciais, construindo de fato, ali, as raízes do Heavy Metal sem abandonar de forma alguma suas raízes de Rock, de Blues e de Jazz - onde se criaram todos os membros da banda.

O que pode ser visto em Wizard, com sua introdução antológica e dançante de gaita; em N.I.B, com sua musculatura e peso instrumental, em contraste com a voz de Ozzy, e a introdução de baixo vigorosa de Geezer Butler, clássica já quando lançada; na faixa-título, aterrorizante à primeira vista (e até hoje, para alguns), Black Sabbath; no ótimo rockzinho fraseado no maior estilo Led Zeppelin de Behind the Wall of Sleep; e na miscelânia de Warning, talvez escrita para alertar toda a vizinhança, com os ritmos que vinham da cozinha de Butler e Bill, e os 4 minutos de solo de guitarra, que uma banda de junkies estava por perto. E como não escutar a introdução de Wicked World e não lembrar de Joe Morello, Art Blakey ou Gene Krupa?


Entretanto, foi a paranóia delirante do segundo disco que deu à banda a força e ímpeto necessários a um grande grupo. Se o primeiro disco foi bem aceito, o segundo endossou a lista de fãs e afirmou  sua capacidade criativa que, em dois discos contemporâneos, estreava 16 faixas perfeitamente audíveis, sem exceção. 

Foi em setembro mesmo que, ao perceberem que não estavam sendo bem pagos e gerenciados, decidem trocar de empresário. Era o reflexo da segurança de uma banda com público.


Originalmente planejado como War Pigs, Paranoid levou mais tempo para ser gravado, e entre uma garrafa de conhaque e outra - as míticas 4 por dia - , e um baseado aqui e acolá, Ozzy, Tony, Bill e Geezer compuseram as músicas -  e coincidentemente, ou não, renderam mais.

Embora havido o impasse da gravadora com a banda em chamar de porcos os envolvidos na guerra do Vietnã, a quase-faixa-título abre o disco com grandeza, com um tempo complexo, e uma harmonia sombria suavemente misturada às sirenes ao fundo. 

Apesar da estética obscurantista e o peso do power chords que seriam eternizados por Tony, a banda também se encontrava no contexto crítico contracultural da época. Nos versos, eles dão a mensagem: 


"Politicians hide themselves away
they only started the war 
Why should they go out to fight? 
They leave that role to the poor, yeah!"

Em seguida, um dos riffs mais famosos do rock pesado dá sequência a inebriante loucura que perpassa toda a faixa -  e boa parte do disco -, a melodia encontra na distorção das notas o par perfeito com a voz angustiante de Ozzy, berrando literalmente como quem pede ajuda. O clima de psicodelia em sinergia com o peso da música pode ser visto aqui.

O início eletrizante é então acalmado por Planet Caravan, onde Ozzy, aos sussurros, num lirismo pouco comum, e acompanhado de toque tribais de percussão  deixa os mais agitados dos seres numa suave extasia para logo mais despertar em repente com Iron Man; acachapante do inicio ao fim, com riffs, melodia e letras realmente capazes de nos transportar ao universo de ficção científica, conflituoso à época - devido ao avanço tecnológico e sua relação com os desastres de guerras. 

Reza a lenda que Caravan e Solitude foram concebidas num período em que Iommi estava fumando como se não houvesse amanhã - faz muito sentido.

Daí pra frente cada música traz consigo universos próprios, variando o ritmo frequentemente e usando muito mais das distorções, como em Eletric Funeral, que de fato consegue expressar em notas e efeitos o que fora criado em palavras. 

A seguir, Hand of  Doom, Rat Salad  e Fairies Wear Boots mostram por que Bill Ward parece literalmente ter retornado a década de 40, e ao bebop. O controle e os contratempos de caixa e pratos falam por si.


Paranoid, quatro décadas depois, ainda soa tão inovador e criativo quanto no ano em que foi concebido. Não supriu a morte do maior Guitarrista que o rock produziu. Porém, enquanto houver música, a Paranóia que habita um pouco em todos será sempre atual.