Ozzy Osbourne e Justin Bieber: o madman para inglês ver


Li, no último sábado, que o roqueiro Ozzy Osbourne gravou, na quarta feira passada, um comercial para a loja de artigos eletrônicos Best Buy. O sessentão fez uma participação especial dividindo a cena com ninguém menos que Justin Bieber, o ídolo pop dos adolescentes.

Até aí nada que seja de alguma relevância ou que impressione por si só, embora os dois cantores se ocupem de públicos que estão diametralmente opostos. O curioso, o que dá certa obscuridade ao fato, é algo que antecede o encontro de ambos e vai além das divergências latentes entre o jovem e o dinossauro do heavy metal.

No ano passado, em entrevista a um programa de tevê, o Príncipe das Trevas, como se convencionou chamá-lo, fora questionado - com pretensa ironia - se ele andava escutando muito as canções do jovem de franja esquisita. Ao que Ozzy respondeu com algo como "Que p* é essa de Justin Bieber?"

É bem possível que Ozzy, à época, não conhecesse, de fato, o garoto; embora pululem fotos suas em capas de revistas femininas infantis e pré- adolescentes e vídeos na decadente MTV, o mundo do madman se encontra em outra galáxia – que só agora, através de uma força incompreensível chamada dinheiro, se cruzou com o recém-pequeno-mundo do menino.

Ozzy, Justin Bieber e Sharon Osbourne

Ozzy acostumou-se a falar mal, e pouco, com deixas e tiradas polêmicas – parte do pacote de ser um madman. Há quase dez anos, parou com as drogas pesadas e o álcool, ingredientes quase fundamentais na pose de roqueiro desregrado que foi se construindo desde os idos tempos do Earth, quando Ozzy & Cia ainda tocavam para beberrões em pubs mofados da Inglaterra. Quarenta anos depois, o velho dedica-se a colecionar artigos excêntricos, como miniaturas de diabos e demônios, e cultivava, até então - dizem - o singelo hábito de queimar folhas da bíblia; porém, passou a tomar chá antes dos shows. 

Hábitos que embora sustentem a fama de príncipe das trevas, não comprometem sua saúde sexagenária. O negócio é parecer.


E parece-me que houve um mal-entendido. Acostumados às idiossincrasias do ídolo, os fãs headbangers do velho madman pareceram não entender a realidade das coisas e, num surto coletivo de interpretação seletiva, foram à caça de outras possíveis interpretações possíveis a fim defender a loucura genuína de sue ídolo. A repercussão da declaração viralizou e rendeu um sem-número de vídeos, montagens, comunidades no Orkut e alguns minutos de fama nos TT’s do Twitter, dando à frase ares de uma grande tirada e enaltecendo a  acidez iconoclasta do astro do rock.

No entanto, um mês e meio depois, após a confusão midiática, o palco vai dividir-se para os dois – contando ainda com a ilustre presença de Sharon Osbourne e toda sua simpatia inglesa. 

O comercial será transmitido no Super Bowl; um evento da liga de football norte-americana, que tem, entre outras atrações – além de 22 homens se batendo com certa hostilidade dentro de campo em busca do touchdown –, shows com grandes astros da música. 

Um festejo para os amantes do esporte, da música pop e do marketing.

A Best Buy entra no último quesito, e sabe o impacto publicitário causado pela junção de duas espécies tão antagônicas como Ozzy e Justin Bieber. Um amigo me disse que quem tem dinheiro sempre quer mais, não sei até que ponto Ozzy precisa mais de dinheiro ou autopromoção para viver.

Se o que conta é a vontade, fãs que vendam os próprios olhos, e fundem num só ídolo o gosto por sua música e a simpatia por sua personalidade, só fazem isso porque querem. Conheci Ozzy bem mais novo do que Justin Bieber é hoje, e já na sua idade, 16 ou 17, só me interessava pela música, sem nenhuma devoção pessoal ao cambaleante madman.

Em abril próximo, Ozzy vem ao Brasil cumprir parte de sua turnê. A promessa é de casa cheia. Com certeza,  ninguém por lá vai se lembrar quem é Justin Bieber. Apenas Ozzy.